mlhphoto_3.jpg

Você já provou suco de groselha? Reparou no comportamento dela quando se mistura à água? Groselha hoje em dia está até fora de moda, não vejo mais ninguém dizendo que ama suco de groselha. Mas eu, definitivamente, não sou uma dessas pessoas. Na escola, quando pequena, durante o intervalo, o suco de groselha que minha avó fazia na hora do almoço tinha participação constante. Era suco de groselha na hora do almoço, acompanhando as batatas e o frango, e suco de groselha e sanduíche com patê de ricota à tarde no intervalo.

Conhecemo-nos num jantar que uma amiga em comum oferecera em sua casa. Seu nome era Melissa, ela era meu suco de groselha. Linda de lábios vermelhos, doces como meu suco de groselha. A meu pedido, nossa amiga fez suco de groselha para acompanhar meu prato. Os outros convidados tomavam vinho tinto suave, inclusive Melissa com aqueles lindos olhos verdes, mas eu tomava meu suco de groselha. Inesquecível, doce, quase enjoativo, mas que me descia pelo corpo como uma suave lembrança da minha infância, dos meus momentos de brincadeira no intervalo, de minha avó preparando-o na pia da cozinha, iluminada pela luz da janela. Eu sentada à mesa a observava no contra-luz, uma verdadeira cena cinematográfica. Mas eu não pensava assim àquela época, era apenas minha querida avó preparando minha lancheira.

Desde que pus meus olhos sobre Melissa nunca mais tirei-os dela. Só Melissa vejo em minha frente. Melissa, cabelo cor de rosa, destaca-se na multidão. Longas pernas de modelo, cheias de hematomas, Melissa desastrada e distraída.

Reserve um copo transparente de vidro. Encha-o com água, à vontade. Escolha a marca de groselha de sua preferência. Tome cuidado para não fazer um furo demasiado grande na boca da garrafa, caso contrário o líquido cairá aos montes e perderá todo seu encanto. Com tudo preparado, incline a garrafa sobre o copo. Deixe cair, levemente, algumas gotas do líquido vermelho sobre a água. Deixe formar um fino fio de líquido vermelho, uma linha vermelha caindo sobre o copo. Graciosamente vai se construindo pela água ondulações de todos os tamanhos, espirais rubras descendo levemente até o fundo do copo onde armazena-se a groselha caída. O mesmo efeito poderia ser obtido derramando sangue sobre a água, mas esta não é uma história sobre vampiros, é uma história sobre amor. Aprecie o cheiro doce que exala aquelas curvas tão delicadas e suaves, tão frágeis que ao menor movimento se desmancham e transformam-se em outras novas ondulações, novas espirais, novas curvas de encantamento vermelho e doce dentro da transparência da água.

Foi assim que Melissa entrou em meu coração, ele transparente como a água, revestido de vidro. Suas curvas sob os lençóis de cetim assemelhavam-se tanto às minhas curvas dentro do copo de água. Sua boca, seus lábios torneados, cheios de reentrâncias e saliências, minúsculas colinas de pele vermelha, como que iluminadas pela luz do pôr-do-sol. A maneira como se desenvolvia pela cama, como chegava até mim com seus olhos felinos, seu cabelo cor de rosa, era tudo como meu delicioso suco de groselha, da minha criança perdida que eu reencontrava agora em Melissa.

Experimente você algum dia preparar o suco de groselha conforme lhe expliquei. Sinta o cheiro, observe a fina linha de líquido vermelho saindo da garrafa, caindo na água como espiral e aquietando-se ao fundo do copo, calmamente, uma generosa porção de groselha vermelha. Misture as duas substâncias. Tudo se tornará vermelho, completamente vermelho e doce, assim como em minha vida tudo se tornou Melissa, Melissa dos olhos de gato e cabelo cor de rosa.

© Texto by Danusia R., do blog Hipermoderna