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Quando duas pessoas divergem sobre alguma coisa, é comum vê-las se acusarem mutuamente de serem preconceituosas.

Preconceito é algo que, em princípio, ninguém admite ter. No máximo, o sujeito confessa que já teve, mas superou. ‘’Durante certa fase da minha adolescência, influenciado por más companhias, acreditei que… porém há muito tempo superei essa fase'’.

Preconceito, mesmo, quem tem é o outro, esse interlocutor teimoso que insiste em discordar de mim e faz questão de manter seu ponto de vista equivocado.

O pior tipo de preconceito é o do sujeito que não fala, que não expressa sua opinião ('’de qualquer forma, os outros não entenderiam'’), porém está sempre preparado para agir - energicamente, como convém - contra aqueles que são efetivamente preconceituosos e dão maus exemplos.

A recente passeata do ‘’orgulho gay'’ incomodou alguns desses preconceituosos enrustidos e chegou ao ponto de fazê-los falar.

Não citarei nomes, porque seria constrangedor identificar qualquer pessoa envolvida nesse tipo de episódio.

Um indivíduo de meia-idade, viajando no mesmo elevador que eu, viu na mão do ascensorista um jornal com fotos da passeata. E não resistiu a fazer seus comentários:

- Não tenho nada contra os gays, mas acho que eles estão exagerando no exibicionismo. Precisavam desfilar assim? E ainda por cima na praia? Por que não foram para um lugar mais discreto?

Fiquei com vontade de intervir. Tive o impulso de perguntar se a passeata deveria, a seu ver, se realizar num cemitério. O indivíduo voltou à carga:

- Sou uma pessoa à moda antiga. No meu tempo era homem com mulher e mulher com homem. Agora é essa coisa esquisita: homem com homem, mulher com mulher. Não tenho nada contra, já disse, mas quando vejo essas coisas sinto uma sensação estranha dentro de mim.

O elevador parou, porém ainda não era o meu andar. E também não era o andar do indivíduo, que continuou suas observações críticas a respeito dos gays:

- Falando francamente, os homossexuais me incomodam, eles deviam fazer um tratamento. Garanto que muitas bichas do sexo masculino iam ser recuperadas. Quanto às mulheres que se amarram em outras mulheres, não sei se essa perversão tem cura. Para ser sincero, acho que as chamadas ‘’lézbecas'’ têm algo de demoníaco.

(O indivíduo pronunciava a palavra ‘’lésbicas'’ como se fosse um termo proveniente de alguma língua estrangeira, possivelmente a língua do demônio.)

Desisti de me controlar e decidi intervir. Disse-lhe que ele estava falando bobagens e que essas bobagens podiam levar espíritos fracos a comportamentos intolerantes. Recomendei-lhe a leitura do livro de Joaquim Brasil Fontes sobre a poesia de Safo de Lesbos, a poeta grega que foi a primeira vítima de uma campanha difamatória que demonizava o seu homossexualismo (sic).

Contei-lhe que o grande poeta Ovídio era tão preconceituoso em face do lesbianismo (sic) que, quando leu a história da moça Pasifae, que se apaixonou pelo Minotauro e transou com ele, deu um suspiro de alívio e disse: ‘’Bem, ao menos era um monstro do sexo masculino'’.

Prendendo a porta do elevador (que havia chegado ao meu andar), ainda comentei:

- Para Ovídio, Safo estava numa categoria abaixo da dos monstros.

A porta, finalmente, se fechou, o elevador podia prosseguir sua viagem. Contudo, como ele ainda permaneceu cinco segundos parado, pude ouvir a voz do indivíduo, comentando com o ascensorista:

- Esse coroa é taradão, você viu? Ele se amarra numa ‘’lézbeca'’.

O ‘ORGULHO GAY’ E AS ‘LÉZBECAS’
(um texto de Leandro Konder, publicado no JB em julho de 2003)

Leandro Konder (Petrópolis, 1936) é um filósofo marxista brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984 obteve o título de doutor em Filosofia pela UFRJ. Foi professor da Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atuante pensador, foi autor de inúmeras obras em diversas áreas do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, História e Educação.