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1. a Comunidade

Imagine a cena:

Várias mulheres, com saias indianas, batas, cabelos até a cintura. Algumas com faixas coloridas na testa. Vários almofadões pelo chão, tapetes, colchões e mantas. Cheiro de incenso no ar. Cristais, velas, abajur com uma canga jogada em cima. Algumas crianças. Todas juntas, livres. Num clima de “make love, not war“.

Foi assim que me senti, ao ouvir de uma colega da faculdade:

“Ai, senta aqui (no banco)! Vamos conversar um pouco! Adoro saber as novidades da comunidade gay!!”

Que “comunidade gay”, cara pálida?

Nós não estamos nos anos 60. Não vivemos em uma comunidade, nem em uma simbiose profunda por causa de nossa orientação sexual. Estamos por aí, como todos os seres humanos desse planeta.

Se temos algo em comum, de alguma forma, não é por algo bom e agradável. Se nos unimos, mantemos contato, vamos aos mesmos lugares, fazemos uma Parada, temos bares e boates gay friendly é exclusivamente por causa do preconceito e da homofobia.

Se não fosse pelo fato de sermos discriminados, não haveria uma “comunidade gay”. Não teríamos ligações uns com os outros. Por acaso existe uma “comunidade hetero”? Não há necessidade, já que o mundo segue as regras da heteronormatividade. Heteros não precisam escolher determinados lugares para trocarem carinho publicamente com as pessoas que amam. Podem casar, beijar, fazer seguro de vida em nome do marido (esposa). Declaram os bens do casamento no Imposto de Renda. Se escolhem por afinidade. A causa que os une não é determinada pelo o que eles são, mas por seus interesses.

A verdade é justamente essa. Precisamos nos unir porque somos uma minoria discriminada. Não temos direitos garantidos. Caso a lei estivesse mais adiantada no Brasil, se o projeto de lei que criminaliza a homofobia já estivesse aprovado, se você pudesse beijar sua mulher na rua, provavelmente, nem lendo esse texto você estaria. Para que estar conectada em um blog lésbico? Você poderia estar se dedicando a outras coisas, algo que você goste ou queira fazer.

Não existe um ponto de ligação entre todos os gays. Talvez um gene, segundo algumas pesquisas. Mas, claramente, não somos uma irmandade. O que nos liga é a incompreensão. Infelizmente.

Portanto, a comunidade gay “cor de rosa” só existe aos olhos de quem está de fora. Aqui dentro a história é bem diferente. São relatos de discriminação e impossibilidades. De esperanças de que as coisas mudem.
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2. Atraso ou retrocesso?

Navegando pela internet, paro em sites LGBTT, blogs e colunas específicas de algumas mulheres que andam fazendo sucesso com suas piadas e receitinhas para lésbicas:

. O humor de um tal Manual é aterrorizante. Mal sabem as moças que elas não estão fazendo piadinhas legais com situações que acontecem com as lésbicas. Elas estão dando força para rótulos, estereótipos, padrões. Isso não é humor. Fazer isso é fácil! Humor bom é o feito na crítica, nos detalhes, na reflexão. Pegar situações cotidianas e transformar em situações padrões das lésbicas é patético. O pior é que fico chocada como as moças fazem sucesso. A mulherada acha graça e se acha bem retratada?

Como as lésbicas do meu Brasil varonil podem rir dessas situações? Concordarem com estereótipos e rótulos que no dia a dia impedem a livre expressão de quem somos? Da forma que amamanos?

. As colunas de comportamento são sofríveis! Desde quando comportamento se tornou choramingação de pitangas? Falar de suas próprias experiências? Comportamento é algo amplo, que pode abranger várias coisas, mas não exclusivamente experiências pessoais. Como se aquela pessoa tivesse visto e vivido de tudo e tivesse poder e sabedoria para falar de si como se fosse de todas? Faltou Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende nessa escola. Ter uma coluna não é olhar para o próprio umbigo e falar de si. É olhar para fora. Para o outro. Para disparar a reflexão diante do cotidiano. Nada além disso.

. Então, se eu acho o que anda por aí tão ruim, por que eu não escrevo?

Talvez, eu seja a menos jornalista das jornalistas. Nunca tive um ego suficientemente fortalecido (ou seria prepotência mesmo) de com a caneta na mão, querer impor minhas idéias ao leitor. Sempre achei que o jornalista/autor/escrevinhador deve somente pontuar e começar o assunto. A conclusão fica para o leitor. Com sua competência individual e suas ricas opiniões conquistadas e baseadas em suas próprias vivências. O resto é bla bla bla.
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