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Esse texto vem em resposta a um post anterior que escrevi no blog Queer Girls e que foi (gentilmente) reproduzido aqui no Uva na Vulva. No post em questão “Atraso ou Retrocesso” critiquei a estereotipia, o reducionismo e o humor mal feito por alguns blogs e sites lésbicos.

Ao lerem o post, as leitoras constatarão (de cara) que meu propósito foi enaltecer a diversidade e expor a minha opinião ao que acho que pode (e provavelmente será) uma via de mão dupla a respeito de preconceitos, padrões e limitações de algo que nunca, jamais, deve servir para esses fins. Porque, hoje, rimos das piadinhas bobas que se faz sobre as lésbicas e suas idades, sobre como se comportam, são os relacionamentos e etc. Amanhã, nós mesmas podemos ser vítimas desses preconceitos. Como já nos mostrou a história, as minorias só conquistaram seus direitos na base da luta (e quanta!). Não em cima de um riso instantâneo. Um ótimo exemplo disso é a própria identidade gay nas paradas. Alguns se revoltam como as paradas são retratadas pela imprensa. Uma festa super alegre e descompromissada. Como se todos os gays estivessem fazendo uma rave colorida. Grande oportunidade de muita azaração. Será só isso mesmo? Os militantes, as lésbicas, gays, trans que trabalham no dia-a-dia por maiores direitos acabam sumindo diante da farra. Todo o esforço e luta acaba por ser minimizado para ficar por trás dessa imagem. Isso é estereotipia, reducionismo, empobrecimento. Toda a diversidade e pluralidade do movimento homossexual brasileiro é ignorada diante do brilho e da festança. Não se fala nas conquistas, nos direitos, no que ainda está por vir. Na grande imprensa, o que interessa são as imagens de casais se beijando, drags e travestis montados e outras coisas que vendam notícia. Eu, você e eles somos apenas isso?

O que não quer dizer que temos que ser sérias, exemplares, intelectualmente aguçadas, com respostas embasadas em teorias para nos fazer respeitar. Não!! Até porque se fosse assim, também não estaríamos caminhando para onde estamos: muito lentamente para a conquista de mais direitos civis. O “besteirol” é também algo muito sério. Que fez parte do que é mais humano em nós. A capacidade de rir de si mesmo e dos outros. Até porque quem já leu e conhece o Queer Girls sabe que ali o maior espaço é dado para elementos cotidianos, notícias que estão nas bocas, reflexões despretensiosas. O que questiono no humor feito por algumas pessoas é o empobrecimento através dos exemplos, o uso de experiências pessoais e clichês para falar das lésbicas genericamente.

Um esclarecimento. Já diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa sobre a palavra Estereótipo: “3. algo que se adéqua a um padrão fixo ou geral. 3.1. esse próprio padrão, geralmente formado de idéias preconcebidas e alimentado pela falta de conhecimento geral sobre o assunto em questão. 3.2. idéia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamentos e falsas generalizações. 4. aquilo que é falta de originalidade, banalidade, lugar-comum, modelo, padrão básico. Concluam por si próprias: isso é engraçado??

Engana-se quem pensa que a internet é espaço livre e sem compromissos. Esse veículo já deixou essa definição para trás há muito tempo. Objeto de estudo em diversos cursos (de graduação, mestrado ou doutorado), mobilizador de quantias bilionárias por todo o mundo, palco de disputas empresariais acirradas, portal para entrada e aquisição de informação, criação de relacionamentos, jogos, etc. Qualquer pessoa deve pensar em suas responsabilidades diante do que se escreve, cria e multiplica. Até porque a ética está conosco o tempo todo. Eu não consigo deixar a minha ética e meus valores submersos quando escrevo ou leio qualquer tipo de texto/informação/ artigo. Até porque se assim o fosse, eu seria uma tabula rasa. Coisa que nenhum ser humano é.

Finalmente, repito as palavras que escrevi no primeiro post: “Sempre achei que o jornalista/autor/escrevinhador deve somente pontuar e começar o assunto. A conclusão fica para o leitor. Com sua competência individual e suas ricas opiniões conquistadas e baseadas em suas próprias vivências. O resto é bla bla bla.”. Eu acredito que qualquer ser humano é plenamente capaz de fazer suas escolhas. Ao contrário do que pensa o senso comum, política não é só o que fazemos em épocas de eleição. A Política (com letra maiúscula, já que falo de um conceito mais abrangente do que política governamental ou partidária) está nas pequenas escolhas cotidianas. Até mesmo no que escolhemos (ou elegemos) para ser nossa fonte de informação, entretenimento ou humor. Porque informação, diversão e humor, querendo ou não, são coisas muito sérias. O humor não nasce ou brota. Não ocorre por insight. Se assim for, não é de qualidade. O humor é rascunhado inúmeras vezes até se tornar válido. Ou seja, é trabalhado até que provoque reflexão. A única coisa que lamento nos referidos textos não é a prática humorística. São os elementos escolhidos para virar piada. Na verdade, as críticas que vieram diante do texto só corroboram a minha opinião. A diversidade é tudo e qualquer coisa que esses blogs e sites não promovem. A partir do momento que pego a minha experiência e generalizo, eu estou aniquilando a existência do outro. Lamentável mesmo que as coisas ainda sejam assim, pois o bom da vida é que somos tod@s tão diferentes e únicos que não podemos ser explicado por manuais.

OBS.: Pela pluralidade e pela riqueza que nos pertence, o nome do meu blog é uma homenagem a nossa diversidade. Somos muitas e tão diferentes que não caberia tudo isso apenas numa só Girl.

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