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SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER…

QUANDO DIREITOS-DE FATO BATEM DE FRENTE COM INTERESSES NADA NOBRES

Associação da Parada do Orgulho GLBTT, prefeitura e governo de São Paulo: intolerância na comemoração do Orgulho Gay

Carro da Conlutas é impedido de participar do evento. Ativistas foram violentamente espancados e presos. Leia nota do grupo de trabalho de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros da Conlutas.

Lamentável e contraditoriamente, a intolerância política e a repressão foram exercidas com toda força na 12ª edição da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo neste domingo, 25 de maio. Sem nenhum motivo concreto e convincente, a organização da Parada, encabeçada pela Associação da Parada do Orgulho GLBT, proibiu o carro de som e, conseqüentemente, o Bloco da Conlutas, organizado pelo grupo de trabalho GLBTT da entidade – que organiza mais de 700 entidades dos movimentos sindical, estudantil, popular e, também, de mulheres, negros e GLBTT – de seguir pela Avenida Paulista.

Diante da indignação e da resistência dos ativistas, a Polícia Militar – a mando dos organizadores do evento, da Prefeitura e governo do Estado – partiu para a agressão. Com uma violência desproporcional, os policiais, comandados pelo major PM Pedro, espancaram os participantes. Uma militante do PSTU teve a mão quebrada. Outros tantos ficaram feridos em diferentes graus.

Quatro militantes foram presos: Zé Maria de Almeida, da Conlutas, Paulo Barela, dirigente sindical e servidor do IBGE, Altino Júnior, da Conlutas-SP e Reinaldo Chagas, estudante de História da fundação Santo André. Questionado pela imprensa sobre o motivo da prisão, o mesmo não soube responder.

O que aconteceu de fato

Ao contrário de certas versões divulgadas, o carro da Conlutas estava totalmente legalizado, o que, inclusive, fez com que, durante toda a semana, ele aparecesse, tanto no site da Associação quanto em toda a imprensa, como o 4º a sair pela Paulista.

Douglas Borges, responsável pelo GT-GLBTT da Conlutas e organizador do Bloco, contou que, no horário marcado, o carro estava no estacionamento e foi liberado pela vistoria, conforme constava no contrato assinado entre a entidade e a Associação da Parada. Já na avenida Paulista, novos impedimentos foram criados, como por exemplo, a exigência de uma corda de segurança que foi prontamente providenciada.

O último recurso da organização da Parada foi utilizar a força para proibir que o bloco se manifestasse. Após longo período de impasse e tentativas de negociação com a organização da parada, o carro foi retirado da avenida sob protestos e vaias. Os ativistas que estavam no chão, contudo, permaneceram no local. O carro que vinha atrás do Bloco da Conlutas recebeu ordem direta da PM para avançar, segundo presenciou uma repórter. Ao ver que os ativistas da Conlutas não deixavam a rua, a polícia iniciou a pancadaria.

Os policiais estavam armados com cacetetes, armas de fogo e de borracha e bombas de efeito moral. Os manifestantes, com suas bandeiras, palavras-de-ordem e indignação.

Zé Maria, da Coordenação Nacional da Conlutas, foi brutalmente espancado. Reinaldo recebeu um “mata-leão”, técnica de esganamento que pode levar à asfixia. Paulo Barela teve o olho esquerdo gravemente ferido. Altino também foi bastante espancado e ficou ferido. Todos foram levados à 78ª delegacia.

Censura e autoritarismo

As causas dessa arbitrariedade estão longe de serem meramente burocráticas. O que aconteceu neste domingo foi, vergonhosamente, um ato de censura política.

Em nota de divulgação do Bloco, anterior à Parada, a Conlutas dizia que seu objetivo era “rejeitar a mercantilização do movimento e as políticas demagógicas dos governos federal, estaduais e municipais, que longe de acabarem com a homofobia e a violência contra nós, a mascaram” e pedia o “fim de toda a violência que os GLBTs trabalhadores sofrem no seu dia-a-dia”. O manifesto ainda defendia que “é impossível acabar com toda a homofobia sob o capitalismo, porque o capitalismo é o reino da desigualdade, onde imperam e são fomentados todos os preconceitos para aumentar a exploração dos trabalhadores e dar lucro para os burgueses”.

Foram estas posições políticas que a Associação da Parada decidiu censurar e impedir de serem livremente expressas na Paulista.

Querem tirar o vermelho do Arco-Íris

O Bloco Classista, Independente e Combativo na Parada do Orgulho Gay de São Paulo, como estava sendo chamado, pretendia resgatar o espírito de luta contra a homofobia, não sendo apenas uma megafesta patrocinada por empresas.

A origem do Dia do Orgulho Gay vem sendo desvirtuada pela Associação da Parada do Orgulho GLBT que sistematicamente tenta impedir manifestações políticas durante o evento, esvaziando seu caráter reivindicatório e, conseqüentemente, transformando-o num evento submetido à lógica do mercado e atrelado aos governos e grandes empresas, incentivando, inclusive, a mercantilização da sexualidade.

Nesse sentido, o GT-GLBTT da Conlutas em seu manifesto já alertava para o fato de que “a política de ter lucro com uma parcela dos gays, através do ‘mercado rosa’, criando caríssimos guetos gays para gays e lésbicas da classe dominante, não resolvem o preconceito e a violência contra a maioria”. A data surgiu na revolta de gays, lésbicas e travestis de Stonewall contra a repressão policial, nos Estados Unidos e é assim que deve ser lembrada. O Dia do Orgulho GLBTT nasceu como um dia de luta. E, para nós do GT GLBTT da Conlutas, é assim que deve continuar. Há, ainda, muito para se lutar.

É inadmissível que num dia de luta contra a intolerância e o preconceito, a direção da Associação da Parada exerça uma atitude absolutamente intolerante, de veto político e de repressão aberta, apoiada na polícia, a um setor classista e socialista do movimento.

Proteste

Repudiamos o veto da direção da Associação da Parada do Orgulho GLBT de SP à Conlutas. Conclamamos todos que defendem a livre manifestação de idéias a todos, independentemente de diferenças políticas, a protestarem através de mensagens e moções para a Associação da Parada e ao governo do estado, com cópias para a Conlutas.

Leia na íntegra e saiba outros detalhes aqui, no site da Conlutas.

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UPDATING

O UNV, sempre fiel ao compromisso com os princípios democráticos, abre espaço para a versão - nota de esclarecimento - da APOGLBT sobre o veto ao Trio do Conlutas.

Veja AQUI a nota de esclarecimento da APOGLBT.

É direito de cada um tirar sua própria conclusão a respeito da ocorrência, porém o UNV reitera seu apoio e sua credibilidade à versão apresentada pelo Conlutas-até prova em contrário.