UM INÍCIO DE CONVERSA - DIVERSIDADE SEXUAL

Muita gente diz que o “homossexualismo” é condenado pela bíblia. Se, entretanto, fizermos uma leitura minuciosa e completíssima dos textos sagrados para religiões judaico-cristãs, não encontraremos a palavra homossexualismo, nem homossexualidade ou homossexual, em nenhuma passagem. Para quem imagina que a condenação ao amor homossexual vem de tempos imemoriais, uma informação: o termo homossexual foi criado apenas em 1868.
E, claro, imaginamos que o termo “heterossexual”, assim como o significado que a ele se atribui correntemente, o de amor normal entre pessoas de sexos diferentes, seja tão antigo quanto fazer sexo. Pois saiba: o termo heterossexual foi criado depois do termo homossexual, por volta de 1892, e significava, em sua origem, o amor patológico e doentio por pessoa de sexo oposto. Ou seja, até o início do século XX, o termo heterossexual designava um ser “depravado”! Foi apenas muito lentamente que a palavra heterossexual passou a ter a conotação do ideal erótico que conhecemos hoje. Surpresa?
Claro, pois nos acostumamos com os conceitos e significados vigentes em nossa época e em nossa cultura, esquecemo-nos, muitas vezes, de que eles são construções históricas, dependem da cultura e da forma de pensar dominante em determinada época e que sofrem variações de sentido no decorrer do tempo.
O amor entre pessoas do mesmo sexo, na época do Brasil colônia, por exemplo, era tido como pecado ou sem-vergonhice, sendo tratado com punição, o que podia até mesmo significar morte na fogueira da Inquisição. Com o avanço das ciências, a partir do final do século XIX, a medicina assumiu o “saber” sobre a sexualidade e, portanto, sobre a homossexualidade, que passou a ser entendida como doença, necessitando, assim, de cura e compaixão. Desde o final do século XX a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela medicina, pela psiquiatria e pela psicologia, sendo entendida a partir de então apenas como uma outra forma de se estabelecer relacionamento afetivo e sexual. Esses exemplos nos mostram que o controle da sexualidade e a forma de se entender a homossexualidade servem à ideologia dominante de uma determinada época. E, por isso, são mutáveis e moldáveis aos interesses de cada sociedade e cultura.
A cultura brasileira é fortemente marcada por concepções advindas do ideário cristão, especialmente católico. Assim, podemos entender a origem do preconceito contra a homossexualidade se entendermos que algumas idéias cristãs permeiam toda nossa sociedade, ajudam a formar a mentalidade social, até mesmo de quem não é católico ou cristão. Que idéias são essas? Vamos refletir: qual é a finalidade “natural” do sexo no ideário católico? Reprodução. Qual é a idéia aceita de família? Homem, mulher e filhos. Qual é a principal função da mulher: ser boa mãe. Qual é a posição masculina: de poder e dominação. Por tudo isso é que a homossexualidade é socialmente vista como antinatural e, por extensão, como anormal.
Agora chegamos a um ponto importante. Imagine como é ser homossexual em uma sociedade em que o padrão imposto é a heterossexualidade. Imagine o que significa ser travesti ou transexual numa sociedade em que o masculino tem, por princípio, mais valor do que o feminino. Imaginou? Se for difícil, vamos fazer um exercício simples: o que vem à mente, de forma automática, quando pensamos em gays, lésbicas, bissexuais, travestis? Algumas palavras que imediatamente emergem: sujeira, pecado, promiscuidade, abominação, semvergonhice, safadeza… e muitos outros termos do mesmo nível. Claro que, ao se descobrir com uma orientação sexual diferente da imposta pela sociedade como padrão, qualquer pessoa pode se sentir deslocada, diferente, errada. E esconder essa orientação sexual diferente é quase que a saída mais fácil e, muitas vezes, é a única possível. Tornando-se invisíveis socialmente, gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transgêneros acabam sendo, involuntariamente, (re)conhecidos somente pelos estereótipos, ou seja, por idéias pré-concebidas presentes na sociedade que, além de não condizerem com a realidade, estão repletas de preconceitos, como vimos. Dessa forma, cria-se um círculo vicioso difícil de romper, já que a invisibilidade apenas ajuda a reforçar os estereótipos e alimentar a homofobia¹.
Mas então não existe saída? Claro que existe! Precisamos nos munir de informações adequadas para desconstruir essa mentalidade vigente. Precisamos entender, por exemplo, que os livros sagrados, como a Bíblia, são produção humana que sofreram inúmeras traduções e transformações no decorrer dos séculos, e que são interpretados de acordo com os interesses da cultura dominante. Por isso mesmo, não podem ser entendidos literalmente. Assim, por exemplo, a principal passagem bíblica em que supostamente há condenação da homossexualidade, a destruição de Sodoma e Gomorra, pode ser interpretada de forma totalmente diferente do que o pensamento cristão hegemônico prega atualmente. Há leituras que dizem que o pecado dos sodomitas foi a falta de hospitalidade com os viajantes desconhecidos, um verdadeiro “pecado” para aquela época. De mais a mais, como poderíamos, atualmente, interpretar ao pé da letra passagens bíblicas que dizem, por exemplo, que podemos possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos, como lemos em Levítico 25: 44 ? Ou o que está no livro de Êxodo 35: 2, que estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte?
Olhe para os lados, observe as pessoas: somos todos diferentes, mas isso não deve ser motivo para criarmos tantas e tantas desigualdades. Aprendendo a conviver com - e a respeitar! as diferenças estaremos construindo um mundo menos árido, mais tranqüilo para todos vivermos em harmonia. Talvez um mundo verdadeiramente cristão!
¹ Homofobia: aversão a quem expressa orientação sexual diferente da heterossexualidade, que é aceita como padrão “normal” na sociedade. A homofobia se alimenta de preconceitos e estereótipos, muitos de origem religiosa, e gera rejeição e violência contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.
Esse texto faz parte da cartilha “Jovens pelo Direito de Decidir - Um Início de Conversa”.
Uma realização do grupo Católicas pelo Direito de Decidir
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- Saúde sexual e reprodutiva
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1 Comentário














































Muito bom esse texto!Educativo e necessário de ser lido! xD
Comentado em 20.06.2008