DILATANDO AS FRONTEIRAS DE NOSSA MORAL SEXUAL

A questão homossexual nunca foi tão discutida como vem sendo nos últimos anos. Por um lado, a pós-modernidade transformou o que se considerava a realidade única, a verdade científica numa colcha de retalhos onde a diversidade pode ter lugar. Nesta mescla entre o inovador e o tradicional, atravessamos um tempo de incertezas e momentos de maior ou menor rigidez nos padrões socialmente aceitos. Por outro lado, o advento da AIDS e sua associação, no início da epidemia às atividades homossexuais, trouxe luz aos debates sobre o tema.
Uma das questões mais polêmicas é a que opõe os conceitos de “opção sexual” (ou preferência) a “orientação sexual”. Tal oposição traz à baila a velha discussão entre Natureza e Cultura. De um lado a crença de que alguém nasce homossexual, determinado pela genética ou algo similar, sem poder escolher. De outro lado a crença de que ser homossexual é uma opção, que é possível escolher e assim as pessoas escolheriam relacionar-se com outras do mesmo sexo.
Parece ser consenso para a população em geral que o fato de não ser uma escolha confere legitimidade à homossexualidade. Aqueles que falam a favor dela alegam que não é possível escolher. Assim sendo, ser homossexual eqüivaleria a ser canhoto. Já aqueles que falam contra a homossexualidade afirmam que é uma escolha.
Na esteira deste grupo, surgem os tratamentos para conversão tanto de cunho religioso como de cunho “técnico”. Estes podem ser de toda sorte, destacando-se os psiquiátricos e os psicológicos, apesar de resolução do Conselho Federal de Psicologia de março de 1999 que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.
Vera Wisman faz algumas objeções a esta discussão. A mais poderosa delas é a seguinte: se a homossexualidade se legitima apenas através do fato dela não ser uma escolha, estaremos caindo na mais enganosa suposição de que seria desejável ou necessário mudar de lado. A diferença entre ser um doente, desviante e ser um pecador.
Gostaria de colocar aqui uma outra objeção a este tipo de legitimação: a oposição entre natureza e cultura é uma construção cultural. Com isso quero dizer que esta oposição é também ela uma invenção historicamente datada sendo portanto completamente arbitrária.
O historiador Jeffey Weeks afirma que a sexualidade tem base nas possibilidades do corpo mas o sentido e o peso que lhe atribuímos são modelados em situações sociais concretas. Assim, antes de pensar o corpo e a sexualidade como tendo atributos universais e invariáveis, devemos pensá-los como tendo sentido e significado próprios em cada sociedade em determinado momento.
Até meados do século 19 o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo era visto como uma atividade potencial para qualquer pessoa. Em 1869 o escritor austro-húngaro Karl Kertbeny usou pela primeira vez os termos “homossexual” e “heterossexual”, definindo o primeiro como tendo um “comportamento variante benigno” do segundo.
Com o passar do tempo, os termos foram sendo usados para distinguir o normal do anormal. No começo do século 20 estes termos já tinham significados opostos, de modo que hoje acreditamos que existem indivíduos heterossexuais e homossexuais sendo que aqueles que não se encaixam muito bem a estes padrões são chamados de bissexuais.
O mais complicado disso tudo é que tal divisão não é observada em todas as culturas humanas e ela só existe há pouco mais de 130 anos!!
As pesquisas e escritos dos últimos 50 anos nos permitem afirmar que em se tratando de sexualidade existe tanta variabilidade e possibilidade quanto existem pessoas, ou seja, cada indivíduo faz sua própria construção mediada por sua história pessoal, suas experiências, o contexto mais amplo onde vive e o momento histórico e social.
Hoje em dia o termo “família” abrange um grande número de arranjos. A tradicional família burguesa que, desde sua invenção, reinou absoluta até meados dos anos 50 composta por pai, mãe e filhos está cada vez mais difícil de ser encontrada. Em seu grande guarda-chuva, o termo hoje engloba pais com filhos e mães com filhos, que podem ser solteiros, viúvos, separados que podem se recasar e incluir filhos de novos companheiros etc. Nesta esteira, as auto denominadas “famílias alternativas” começam a ocupar espaço e colocar em cheque a opinião pública.
Acredito que o adjetivo “alternativas” não seja adequado para definir estas famílias. Elas são formadas como qualquer família: por pessoas sozinhas ou casais com crianças adotadas, filhas de um relacionamento anterior de um dos cônjuges ou em parceria com um amigo ou amiga ou mesmo fruto de inseminação artificial.
O maior conflito que tenho assistido assolar estas famílias refere-se a “como” contar aos filhos sobre ser homossexual. Muitos pais são felizes afetivamente, lidam abertamente com a questão em seus relacionamentos sociais mas têm dificuldades quanto a falar com os filhos. É curioso notar que o temor vai desde “não ser aceito” pela criança até o preconceito que ela irá sofrer nas relações sociais.
Em que pese a maior aceitação social dos homossexuais, as famílias por eles constituídas ainda sofrem com as grandes limitações a elas impostas. Há anos tramita no Congresso Nacional a Lei de Parceria Civil entre pessoas do mesmo sexo, de autoria da então Deputada Marta Suplicy, enquanto inúmeras pessoas que perdem o/a companheiro/a são obrigadas a lutar na justiça pelo patrimônio construído pelo casal.
Outro preconceito extremamente arraigado é quanto a crianças nestas famílias. Os críticos alegam que os filhos ficarão confusos quanto a “quem é o pai, quem é a mãe” e “como isto certamente lhes trará prejuízos”. O que dizer sobre as famílias constituídas por um pai gay e um filho? Toda a sorte de fantasias perversas assola os mais conservadores! E o pior de tudo: como lidar com uma família onde o filho é fruto de uma relação sexual negociada onde uma das parceiras de um casal lésbico se relaciona com fins procriativos com um amigo gay ou vice-versa? “Pobrezinha da criança”, dizem eles!
No entanto, não é isto o que se vem observando. É claro que qualquer destas hipóteses pode vir a se tornar uma situação problema. Casais heterossexuais socialmente adaptados geram filhos com graves problemas das mais diversas gamas. No entanto afirmar que a priori estas crianças serão problemáticas ou enfrentarão problemas em seu desenvolvimento é uma afirmação que tem bases profundamente homofóbicas.
Neste aspecto, tomo emprestadas as palavras de Jurandir Freire Costa: “a geração ‘papai-mamãe’ criou o nazismo, o terror stalinista, os preconceitos sexuais, a inferioridade feminina, o racismo e outras pérolas humanas conhecidas de todos. Não creio que dilatando as fronteiras de nossa moral sexual, para incluirmos práticas amorosas não-majoritárias, venhamos a perder o sentido do que é ético e do que é bom para as futuras gerações”.
Quanto aos críticos, resta-nos evocar o psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto: “Só reconheço no outro aquilo que conheço em mim”.
Uma das saídas que estas famílias têm encontrado é a constituição de grupos organizados para discussão e reforço de suas identidades. A perspectiva de uma organização social lésbica e gay abre cada vez mais a possibilidade de escolha de um modo de vida, dando às pessoas a chance de viver intensamente suas necessidades e desejos. Além disso, a organização social propicia uma sensação de segurança, de reforço da auto-estima e de maior contato com os próprios sentimentos.
Alguns casos de grande repercussão na mídia têm ajudado a desmistificar estes grupos. Entre eles o de Maria Eugênia e Chicão, filho de Cássia Eller, pode ser citado como exemplo.
Uma questão de extrema importância neste contexto surge quando, como profissionais, no consultório ou na instituição, recebemos uma dita “família alternativa”. Muitos profissionais, e isto é inegável, ainda não estão confortáveis para lidar com tal situação.
Para compreendermos a sexualidade em toda a sua complexidade é necessário deixar de reduzi-la a categorias que encerram “grandes verdades”. A antropóloga Carole Vance nos faz a pergunta: “Homossexualidade, que homossexualidade?” Aquilo que é óbvio precisa parecer óbvio. Categorias não são suficientes para dar conta das complexas relações humanas e é necessário conhecê-las a fundo para que pessoas que amam pessoas do mesmo sexo possam ter reconhecimento cultural, aceitação social, e proteção legal numa sociedade mais justa, tolerante com as diferenças e igualitária.
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Casais e famílias homossexuais: o desafio pós-moderno
Texto de Sandra Regina Pessoa de Meneses,
psicóloga, terapeuta individual, de casal e de família
CRP 06/35901-3
16 Comentários














































Já que ninguém comenta nada, e o Uva Na Vulva anda muito parado, resolvi comentar. É só uma opinião que deve ser parecida com a do UNV (suponho) sobre um velho assunto:
Eu acho que o não reconhecimento e esse rodeio em torno da diversidade sexual é um sintoma de como as valores/idéias no nosso ambiente não tem nada a ver com os nossos sentimentos, desejos, necessidades… Ou seja, não tem nada a ver com a realidade (na minha visão).
E muita gente compra todos (ou a maioria) esses valores / estilo de vida do ambiente. É dessa gente que vem todo esse rodeio, é aí que mora esse “mundo” empiriquitado fora da realidade aonde a gente vive - nessa gente tonta. Como muita gente é assim, tonta, esse “mundo” tá aí “firme e forte”, pra todo mundo ter que aturar (ou comprar)
Pouca gente se aventura a tenta ver as coisas de outra forma. Pouca gente tem um pouquinho mais de coragem, ousadia, honestidade,sinceridade….. (etc)
A verdade é que essa gente tonta atuante no mundo (a maioria) não é lá muito honesta, corajosa, ousada ou sincera, etc etc etc… Marilyn Manson define: just a copy of an imitation.
(sim, é propaganda mesmo, segunda vez que eu cito ele aqui)
Mas é isso, vou parar de ficar falando falando falando e vou arranjar uma namorada, ou estudar, ou dormir.
Eu gosto do Uva Na Vulva. Mas eu geralmente não tenho lá muita coisa nova pra dizer. Eu até tentei falar alguma coisa, mas no fim das contas não falo nada tão interessante assim.
Eu gostava dos textos da D.V., mas eu acho que depois de um tempo, talvez, o assunto tenha acabado também… Eu não sei.
Acho interessante essa coisa de questionar a sexualidade, porque esse tabu todo é a ponta do iceberg. Começando pela sexualidade a gente chega em assuntos tão diversos… Até porque sexo é uma coisa muito importante na nossa vida (se bem que tem gente que diz que “não liga pra sexo”, e quem sou eu pra não acreditar…). De qualquer forma, sexo é uma coisa que define valores, mesmo que tenha gente que não tem essa parada de “wow, sexo! ^^”, esse povo “sem sexo” =p vive numa sociedade onde muitos valores são baseados em… sexo.
Comentado em 28.10.2008
Mas o que eu quero dizer é que eu gosto do Uva na Vulva apesar de eu não comentar muito aqui!
Comentado em 28.10.2008
Eu gostei do Post.
Realmente tem-se falado demais em adoção homossexual, novas famílias, etc…
Sou suspeita para dizer, pois pretendo adotar (com minha esposa) uma criança em breve, ou ainda partir para a inseminação. Mas em um país com tantas regras moralistas, e com tanta hipocrisia em torno do assunto, a gente desanima um pouco.
O importante, eu acho, é que devagar as coisas estão se ajeitando para nós e toda a comunidade LGBT.
** PS.: Posso colocar alguns destes textos em meu blog, claro que, citando a devida escritora e fonte!
Abraços ao UNV.
Comentado em 30.10.2008
Há 11 anos atrás eu e minha “ex” adotamos duas crianças, uma menina e um menino que hoje estão com 11 e 10 anos respectivamente. Com o rompimento (de forma nada amigável) desse relacionamento, as crianças ficaram comigo e hoje são criadas, com muito amor e carinho, por mim e minha atual companheira. Estou com 31 anos e minha companheira com 21. Estamos juntas há 4 anos e pensamos em adotar, em breve, mais duas crianças. Se possível, gostaria de ouvir opiniões a respeito.
Comentado em 30.10.2008
Sempre pra lá de inspirador passar algumas horas por aqui, tirando o atraso das leituras de tantos textos excelentes!
É o que acalma minha mente…
Colocações brilhantes, argumentação fundamentada…
“Não creio que dilatando as fronteiras de nossa moral sexual, para incluirmos práticas amorosas não-majoritárias, venhamos a perder o sentido do que é ético e do que é bom para as futuras gerações”.
Pra mim e pra minha namorada, palavras como estas são valorosas, de uma forma indescritível!
Já pedi outra vez, dá até uma certa “vergonha” pedir novamente, mas… Posso reproduzir no NPDD?
Beijos, Té.
Comentado em 1.11.2008
Seu comentário veio ao encontro de questões que discuti ontem com Aranel de uma forma tão certeira que chegou a me emocionar.
Ontem a noite discutia a valorização do inútil, do fútil e em como tentamos, no NPDD, nos manter focadas no que queremos disseminar e semear: conteúdo e reflexão, seja por vias mais cientificas ou por meio da “arte”.
Muito obrigada mesmo pelas palavras!
De nós do NDPP que admiramos tanto esse espaço!
Comentado em 1.11.2008
Gostei MUITO do site, adorei a tematica.
Dive um pouco de dificuldade pra entender esse texto completamente, mas acho que consegui captar a ideia.
Ta de parabens
Comentado em 8.11.2008
Aiiiiin!! …. Poxa! Não aguento maais entrar e nao ler nada e bem veer naada!
Q SAUDADES DO UVA NA VULVA :S
Comentado em 23.11.2008
nem*
Comentado em 23.11.2008
Não ver nada?
Não ler nada?
O Uva é um portal de conhecimento, acredito até q esteja mais maduro q antes (tudo e todos passam por amadurecimento quando se está crescendo), eu o acompanho desde o início e pude viver isso.
Trata-se de assuntos importantíssimos aqui, é bem atualizado, eu amo o Uva.
E quanto ao texto, acredito q já passamos por poucas e boas por simplesmente gostarmos de pessoas do mesmo sexo, atualmente as coisas estão melhorando, mas… quanto a adoção, acho q ainda vamos calejar muito até conseguirmos essa vencer essa luta, pq eu confesso q pretendo ter um filho com minha companheira, mas a única coisa q me vem à mente, é a questão do preconceito que nosso filho vai passar por conta das cabecinhas de outras pessoas que continua tão antiga.
Comentado em 29.11.2008
saudades das atualizações!!!!!!!!!!!!!!
Mil bjusss
Comentado em 1.12.2008
Nossa, acompanho essa criança desde o início, mas…quanto tempo não venho por aqui…
Como sempre, não poderia ser diferente…AMEI O POST!
Estou a três anos e meio casada com uma Butch, tenho uma filha de 6 anos que a chama carinhosamente de “Tia”. Ela sabe quem é o seu Pai, o ama, mas no dia a dia quem cuida de todas as suas necessidades, somos nós e ela, nos retribui com muito amor de “filha/mãe”.
Ela cresceu achando natural o nosso relacionamento, o que pra mim o é. Quando questionou, por influência de escola, sobre namoros do mesmo sexo lhe respondi: ” Criança não namora nem com menino ou menina, criança BRINCA, e quando cresce…ESCOLHE! Quando vc crescer vai saber!”
Ela aceitou e foi brincar! Dou a ela segurança suficiente pra quando zombarem “TUA MÃE É SAPATÃO!” Ela responder, dando ombros “E daí?! A tua é hétero!!! Fooooda-se!”
O AMOR nunca deveria ser motivo de VERGONHA, DISCÓRDIA, HUMILHAÇÂO ou qualquer outro sentimento negativo e cabe a nós viver naturalmente e mostrar pra esse mundo que somos muitas e temos que ser respeitadas pela pessoa que somos e não julgadas pela homosexualidade, como se isso abafasse todo o resto de nossa essência!
Não sinto vergonha e não atraio preconceito, vivo naturalmente com minha família e somos muito bem recebidas em qualquer lugar que vamos!
Chamamos atenção, por sermos “Femme/Butch/Filhinha”, mas quando olham mais de perto, é inevitável um sorriso, pois esbanjamos amor e respeito!
Beijo no coração minha grande amiga!!!!!
Te amo sempre!
Pra vc, TUTTI, sem “S.O.S. BUTCH!”!!!
Comentado em 3.12.2008
oq aconteceu com vocês?!!?!?
não postam mais?!?!?!
saudades das novidadesssssssss!!!!
voltemmmmmm voltemmmmmm!!!!!!!
tenho certeza q nao sou só eu heim!!!!
bjaummmmmm
Comentado em 3.12.2008
Com ctz UVA NA VULVA, ta fazendo mta falta pra mta gente!!
Voltem logo!! Estamos esperando anciosamente!!!
Comentado em 5.12.2008
bem legal seus posts
VAMOS TROCAR IDEIAS?
beijos
Comentado em 5.12.2008
Muita sauudaade mesmo UVA NA VULVA! *_*
E o q eu quis dizer ali encima com ‘Não aguento maais entrar e nao ler nada e nem veer naada’, foi q não aguento mais acessar o blog e não ver nenhuma atualização nova! Esclarecendo para a VIVIANE!
;)
Comentado em 6.12.2008