07.06.2008

[18:11:13]

CASSANDRA - O NOSSO ANJO PORNOGRÁFICO DE SAIAS

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Pioneira da literatura lésbica no Brasil, Cassandra Rios foi considerada moralista por escancarar estereótipos e preconceitos em linguagem popular

O sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios, no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma direta e sexualmente explícita.

Tamanha ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial. Cassandra Rios, nascida Odete (1932-2002), tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos, resistindo inclusive à implacável censura imposta durante a ditadura militar (1964-1985).

Populares, em prosa simples quando não vulgar, veiculadas em livros baratos com capas provocantes e títulos chamativos, suas obras surpreendiam e cativavam um vasto número de leitores. Cassandra Rios chegou a vender 300 mil exemplares em um ano, transcendendo o público exclusivamente lésbico ou mesmo feminino.

Como explicar essa aceitação? Talvez, justamente por seu estilo ousado e extrovertido. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher, e apresentando essa vivência como um caminho possível para a vida afetiva e amorosa. Quando seus livros foram publicados, a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) estava longe de existir, não havia organizações de homossexuais, e nem mesmo os meios de comunicação publicavam conteúdo erótico. Em uma sociedade patriarcal e machista, a maternidade ainda era considerada o principal papel feminino. Razão pela qual, embora um sucesso de vendas, seus livros sempre foram encarados como marginais.

A homossexualidade só aparecia, na literatura do final do século XIX e da primeira metade do XX, associada a três tabus: o pecado, a patologia e o crime. Esses elementos não estão ausentes da narrativa de Cassandra; pelo contrário: aparecem como formas de preconceito que suas personagens enfrentam. Por isso, as minorias sexuais, que não eram sequer pensadas como tal no Brasil daquela época, perceberam naqueles livros uma oportunidade de verem retratados aspectos de seu cotidiano.

O primeiro romance de temática lésbica a alcançar repercussão nacional foi o livro de estréia de Cassandra Rios, A volúpia do pecado, lançado em 1948. Nele, as personagens Lyeth e Irez buscam no dicionário um termo que defina seu comportamento — elas próprias questionavam a normalidade de um amor diferente dos padrões de sua época. A idéia de que o termo “lésbica” correspondia a um pecado está intimamente ligada ao amor homoerótico nesta obra: “Vinham-lhe à mente os nomes proferidos por dona Margot atribuídos às mulheres que se amavam como elas. Curiosas, consultaram o dicionário: Homossexuais, Tríbadas, Lesbianas! Seriam elas? (…) Queriam saber o porquê de um amor tão desnatural”, escreveu Cassandra.

Em Eudemônia, de 1956, o panorama é diferente: a protagonista vai parar em uma clínica psiquiátrica. Por trás da trama erótica, o que se lê é um retrato do fenômeno da divulgação da psicanálise, em especial da chamada “questão sexual”. Nessa história, a lésbica assumida se submete a um tratamento clínico que considera seu comportamento uma perversão sexual. O psiquiatra procura convencê-la a mudar: “Senhorita Eudemônia, todos aqueles que quiseram libertar-se do instinto pervertido foram bem-sucedidos em nossas clínicas. Tornaram-se criaturas normais e muitos deles hoje têm seu lar e até filhos”.

Seus livros revelam também elementos de transformação histórica: ao retratar um grande número de mulheres urbanas ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970, as obras indicam mudanças de comportamento das homossexuais femininas nesse período. Em Eu sou uma lésbica, de 1979, um baile de carnaval revela a postura mais assumida de gays e lésbicas, o que gerava forte reação contrária. A personagem vê um casal ser retirado à força do salão: “Meu carnaval estava acabado. (…) A bicha, gritando com sua voz esguaniçada coisas que eu nunca ouvira antes, sendo posta para fora; a machona, carregada pelos guardas escada abaixo”. Essas atitudes ainda eram encaradas como caso de polícia.

Apesar do preconceito, na década de 1970 a minoria homossexual passou a se fazer mais visível no Rio de Janeiro, e a ficção de Cassandra trazia várias referências reconhecíveis para quem freqüentava esse submundo. Nos livros Marcella (1975) e Anastácia (1982), por exemplo, aparece o fictício Aço’s Bar, uma alusão ao Ferro’s Bar, ponto de reunião desse público. Em várias outras obras, personagens se encontram em uma certa galeria sem nome, mas facilmente identificável: era a Galeria Alaska, tradicional reduto gay de Copacabana.

Durante a ditadura, a literatura erótica de Cassandra Rios tornou-se alvo certo para os censores. Produções vistas como pervertidas e pecaminosas eram desvios que precisavam ser combatidos pelo Estado. Resultado: trinta e seis dos seus quase cinqüenta títulos foram proibidos na época.

Na maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979), em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo. Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino.

Tachada de “pornográfica”, a literatura de Cassandra Rios não mereceu qualquer esforço de crítica naquele período. Porém, se ela não primava pelo rebuscamento do estilo, tinha o inegável mérito de descrever de forma aguda os conflitos subjetivos vividos pelos personagens: seus temores, questionamentos, e o preconceito já internalizado.

Em tempos de “politicamente correto”, se comparados à literatura lésbica atual — como nas coleções “Edições GLS” (Summus) e “Aletheia” (Brasiliense) —, seus escritos podem parecer moralistas ou mesmo condenatórios ao lesbianismo (sic). Afinal, ela se utilizava dos códigos culturais vigentes, cheios de preconceito, para narrar experiências afetivas fora dos padrões da sociedade heterossexual. Lançava mão de termos comuns aos estereótipos com os quais a sociedade, de maneira geral, se referia às homossexuais, como “machinha”, “sapatão”, “corça” e lésbica.

Mas esta escolha de narrativa, longe de significar moralismo, revela um caráter transgressor, uma opção pelo enfrentamento: utilizar os códigos conhecidos para compor uma nova abordagem do tema. A intenção é inserir o amor entre mulheres e a existência destas personagens no mundo concreto, com termos que são de domínio público, em vez de adotar uma linguagem compreendida apenas no ambiente homoerótico. E ela nem poderia fazer diferente, pois buscava o máximo de divulgação para suas obras.

A partir dos anos 1990, a literatura homossexual feminina assume um perfil engajado, de afirmação positiva dessa minoria. Ao privilegiar protagonistas atraentes e bem-sucedidas, acaba enquadrando o lesbianismo (sic) nos padrões hegemônicos na sociedade, com seus valores heterossexuais e mercadológicos. Um discurso que pode ter boas intenções políticas, mas faz alusão a um mundo artificial, distante do cotidiano concreto dos homossexuais.

“Ultrapassadas” ou “pornográficas” que sejam, as narrativas de Cassandra Rios apresentam um quadro muito mais verossímil da situação social e emocional das lésbicas de seu tempo.

© Texto, Adriane Piovesan - para a Revista de História

ADRIANE PIOVEZAN é Mestre em Estudos Literários pela UFPR e autora da dissertação “Amor romântico X Deleite dos sentidos: Cassandra Rios e a identidade homoerótica feminina na literatura” (UFPR, 2006).

Postado por BF.

04.07.2007

[13:55:16]

OFF TOPIC - MEMES

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A Cláudia, do Simples Palavras, indicou o Pequenos Delitos num meme de blogs que falam de amor. O Pequenos Delitos, por sua vez, indicou entre outros, todos bárbaros diga-se, o Uva. Cabe-me agora a tarefa, nada fácil, de indicar outros cinco.

Em total concordância com o que disse o Pequenos Delitos(vide post aqui)

“Ver amor onde a maioria só vê putaria é coisa de gente que merece meu carinho e meu respeito.”

“A blogosfera está cheia de blogs que falam de amor, mas um amor piegas, previsível, que não me emociona.”

E de acordo com as “regras”, devo indicar outros 5 blogs “que enaltecem o amor em seus respectivos conteúdos”. Então, seguindo rigorosamente os critérios estabelecidos e lembrando que só tenho direito a 5 indicações, aqui estão minhas escolhas dos que, para mim, preenchem melhor todos requisitos:

Pequenos Delitos “Our Concour”

Frenesi e Lucidez

O Sexo é Natural

Lorelei Murmura

Eroti-Cidades

Quase que simultaneamente, o Uva Na Vulva também foi agraciado pela nossa queridíssima Duca, do Tempus Blogandi, com a indicação para o prêmio “Blogue Com Grelos” , que de acordo com sua criadora Marta F. “premia mulheres que, na sua escrita, além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor.”

Quero agradecer à Duca pela indicação do Uva e aproveitar para também deixar aqui as minhas, que vão para:

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Tempus Blogandi “Our Concour”

Lésbica: Simples ou com gelo?

Eyes On The Pride

Hipermoderna

As Vossas Vizinhas

Postado por BF.

17.05.2006

[13:59:18]

MAMÃE BUTCH, MAMÃE FEMME

(Problemas técnicos impediram a publicação deste post na data)


Grávida e sexy!

Nesse mês das mães a gente queria dar um aparte sobre mães lésbicas e grávidas lésbicas.

Lésbicas, mesmo antes de bancos de sêmen e inseminações artificiais, sempre engravidaram e foram mães. Ou por que as circunstâncias da vida a levam a se casar com homens ou engravidar deles, ou pedem a um amigo para fertilizá-las, ou porque adotam os filhos da companheira ou de terceiros…Butches também, vejam o exemplo da Cássia Eller. Igual a ela há milhares pelo mundo.

Casais lésbicos que resolvem engravidar enfrentam questões extras além das comuns a qualquer futura mamãe: como conseguir o doador; perguntas indiscretas tipo “foi inseminação ou foi ‘no real’ “?; a questão legal de não poder declarar as duas mães no registro de nascimento; e mais toda sorte de situações de curiosidade e preconceito que vcs podem imaginar, dentro e fora das famílias.

Grávidas lésbicas geralmente deixam seus ginecologistas confusos quando lhes perguntam sobre o sexo lésbico na gravidez (quando essas tem coragem de perguntar, claro). Os mesmos médicos teriam 0% de hesitação em responder sobre os cuidados que um parceiro homem deve ter com sua parceira grávida.

Para quem acha um absurdo que um casal gay ou lésbico tenha o direito de ter filhos e duvida que possam criá-los propriamente, lembre-se que ser filho de um casal hetero não é nenhuma garantia de sanidade e moralidade…olhe a sua volta e leia os jornais.

E para os que também acreditam que casais gays ou lésbicos irão “influenciar” seus filhos a “virarem” gays ou lésbicas…Well… A maioria - senão todos - os gays e lésbicas que nós conhecemos são filhos de pais heterossexuais e vem de famílias bem “enquadradinhas”. Estes também não deveriam ter influenciado na heteroafetividade de seus filhos e filhas???


O carinho do UNV pra todas!

Postado por BF.