19.08.2008

[20:54:21]

DICA L2L

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Eis que surge uma nova editora de livros no mercado, a Editora Malagueta.

Além da pimenta no nome, essa tem um diferencial bem marcante: é a primeira editora brasileira inteiramente dedicada às mulheres que amam mulheres.

Fundada por um grupo de lésbicas cansadas de não terem o que ler, a Malagueta vai publicar obras em que a homossexualidade feminina seja vista de forma natural, declarada e sem preconceito. Nada de subterfúgios, personagens indecisas, suicídios no final da história ou toda aquela parafernália discriminatória que em nossa cultura costuma acompanhar as minorias sexuais.

As histórias terão lésbicas como protagonistas e falarão abertamente da experiência de amar outra mulher. E tocar a vida em frente, em aventuras e mistérios e descobertas.

A primeira obra a ser lançada pela editora é Guardiãs da Magia, de Lúcia Facco, autora também de Lado B e As heroínas saem do armário.

Nessa fantasia ambientada na antigüidade, Lúcia explora o momento em que a sociedade teria começado a se tornar patriarcal, reagindo ao poder que até então era das mulheres de curar e fazer magia.

O lançamento vai acontecer no dia 30 de agosto em comemoração ao Dia da Visibilidade Lésbica - que para o Uva é hoje, 19 de agosto -, na Rato de Livraria, em São Paulo, a partir das 17 horas, com bate-papo com a autora e leitura de trechos por atrizes convidadas.

A Editora Malagueta é um empreendimento coletivo mas está sob a direção de Laura Bacellar, que já foi a responsável pela fundação das Edições GLS.

Lançamento:

As Guardiãs da Magia, de Lúcia Facco

Sábado, dia 30 de agosto de 2008, a partir das 17 horas na Rato de Livraria

Rua do Paraíso, 790, próximo ao metrô Paraíso, São Paulo - SP

Fone: 3569-7882

Postado por BF.

18.08.2008

[15:27:08]

SER GAY NÃO É OPÇÃO E PONTO

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“Ser gay não é opção”

“A única opção que temos é assumir o desejo por alguém do mesmo sexo ou ter uma vida paralela”

Frase de Bruno Chateaubriand

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O direito de ser

… e de andar, amar, conviver…

A idéia é garantir os direitos de TODO MUNDO e pronto.

Direitos iguais para pessoas diferentes.

Porque direito não tem exceção.

Se tiver, nós estamos ferrados.

(E antes que alguém venha com o papo de “direitos humanos para humanos direitos”, lembro que o direito a um julgamento justo e à pena correta também está incluído na lista. Impunidade não é direito de ninguém. Abuso de poder também não. Se existe lei para todos, é para todos e pronto. Inclusive quem tem o dever institucional de zelar por ela).

Todos temos o direito a um meio ambiente saudável, a educação e trabalho, a moradia digna e lazer. Temos o direito de praticar esporte e desfrutar de arte e cultura. Direitos que estão longe de serem garantidos para todo mundo (porque não são poucos os que falham com seus deveres. Meio ambiente saudável, por exemplo, é obrigação de todos…)

Mas tem gente que não consegue usufruir dos direitos individuais (tão exaltados nestes nossos dias!) mais básicos. Gente a quem é negado o direito de simplesmente ser o que é. Sem causar mal a ninguém, sem agredir ninguém. A quem se diz que “ser o que é” é feio, é vergonha, é proibido. É escandaloso, é imoral, é aberração.

Ser gay, lésbica, bissexual não é uma “escolha” (porque às vezes, com a melhor das intenções, alguém defende o direito a essa “opção”). É uma descoberta. Por isso a gente tem usado a expressão “orientação sexual”. E também não é só sexo – é afeto, sentimento, emoção.

Penso nas pessoas por quem já me apaixonei nessa vida. Eu não escolhi. Não olhei para um cara e pensei: “Aquele ali – vou gostar daquele!”. Não tenho nenhuma explicação racional de por que gostei do Roberto e não do Gilberto, o irmão dele. Por que do Wagner e não da Silvia, a irmã dele. Fui para casa pensando “nele” (vários “eles” ao longo da vida…), lembrando de tudo o que eu tinha dito (será que eu mandei bem ou pareci uma tonta?), do que ele tinha dito, ansiosa pelo próximo encontro, antes do qual me olhei no espelho para ver se estava com cara boa… E mesmo com toda essa bandeira, ainda leva um tempo pra cair a ficha: “Putz… Eu tô a fim dele?!!”. A gente descobre a paixão, o amor, o desejo. Não escolhe.

É cruel dizer a uma pessoa que ela não tem o direito de amar e sentir desejo por outra só porque é do mesmo sexo. Com que direito a gente faz isso?

Não é preciso “aprovar” a homossexualidade. Se a sua interpretação da ordem divina afirma que não é “certo”, não é “natural”, ok. Seria desejável entender e aceitar, mas pode ser difícil, muito difícil para alguns. De toda maneira, é imperativo respeitar. Respeitar toda pessoa, independentemente dela ser ou não como eu acho que ela deveria ser – discreta ou escandalosa, pudica ou o contrário, homo, hetero, bi, trans… Tem um monte de gente que anda por aí – homens e mulheres hetero… – com roupas que eu não gosto, fazendo trejeitos que me irritam, tanto quanto eu certamente irrito outras pessoas com meu jeito. Em outras épocas, podia valer a lei do mais forte, o faroeste, o salve-se quem puder. Neste mundo civilizado, precisamos conviver com pessoas diversas e aceitar a diversidade. Os outros também têm de “agüentar” a gente…

Editado a partir do original publicado no Blog da Soninha.

Sonia Francine Gaspar Marmo, a Soninha: heterosexual, 40, vereadora (licenciada) de São Paulo e candidata a prefeita do Município de São Paulo pelo PPS. Soninha também é colunista da Folha de S.Paulo.

Postado por BF.

30.07.2008

[12:36:29]

CLITÓRIS OU CLÍTORIS? (PARTE I)

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Não é apenas o nome das partes da genitália feminina que é desconhecido. Falar sobre a anatomia da mulher continua um tabu

Até mesmo Charlotte, uma das personagens modernas de Sex and the city, admitiu em um dos episódios da série que não conhecia bem suas partes íntimas ou, melhor dizendo – e adotando logo um caminho libertário –, sua vagina. Essa peculiar dificuldade feminina é também retratada no texto Os monólogos da vagina, de Eve Ensler, adaptado e dirigido no Brasil por Miguel Falabella. O que a autora registrou informalmente como conversa solitária poderia muito bem ter inspirado a pesquisa Os diálogos da vagina, realizada sob o patrocínio da Organon. O laboratório, no entanto, queria mesmo era medir a resistência das mulheres a adotar o Nuvaring, um anel vaginal contraceptivo com menos efeitos colaterais que a pílula, lançado no Brasil no início do ano passado. Mas tanto a comicidade do palco quanto o método científico comprovaram a mesma tese: a liberação sexual não habilitou a mulher a explorar e conhecer as particularidades de seu próprio corpo. Nem a referir-se a elas sem pudores.

Percepção – A pesquisa, divulgada no XVII Congresso da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia – Figo 2003, realizado em Santiago, no Chile, foi feita nos Estados Unidos com 1.117 mulheres de 18 a 44 anos, de várias etnias. O estudo examinou a percepção que as mulheres têm de sua vagina e a atitude em relação a ela. Apesar de 75% delas acharem que as mulheres, hoje, são capazes de falar a palavra vagina de forma mais livre, 47% consideram que qualquer discussão sobre ela deve ser feita de forma privada. Ainda assim, 35% se sentem desconfortáveis em fazer isso. Quase a metade das entrevistadas – 46% – acha que o órgão genital feminino é a parte do corpo sobre a qual elas têm menos informação e 24% não se sentem à vontade para tocá-lo. Sem falar que 49% nunca fizeram um exame pessoal da região.

O conceito feminino da vagina também deixa muito a desejar. Apenas 36% das mulheres ouvidas no estudo a descrevem positivamente, enquanto, ao serem perguntadas sobre como @s parceir@s se refeririam à parte íntima delas, 79% mencionam palavras de valorização. Segundo 37% delas, seus/suas parceir@s a qualificariam de sexy e para 24%, de bonita (apenas 9% delas usariam os mesmos termos). “Somos induzidas a pensar que a vagina é algo sujo, feio e pouco agradável. A sociedade vende a idéia de que temos que estar sempre ‘secas e frescas’ ou ‘cheirando a rosas’. As mulheres têm que se sentir bem com o odor natural”, defende a sexóloga belga Goedele Liekens, autora do livro 69 perguntas sobre sexo e a responsável por apresentar a pesquisa no congresso.

A especialista também considera um absurdo que a ditadura da beleza tenha chegado aos genitais. “Muitas mulheres querem fazer plástica nos grandes lábios porque se comparam a modelos que aparecem nas revistas masculinas. Elas não se dão conta de que a maioria dessas imagens é alterada por computador”, afirma ela. Goedele conhece bem o poder da mídia. Antes de sexóloga, foi Miss Bélgica e por muito tempo apresentou programas de televisão em seu país e na Holanda. Mãe de duas meninas, ela afirma que a mudança de conceitos deve começar em casa. “Ainda há mulheres liberadas, cheias de piercing e tatuadas, que não conseguem desenhar uma vagina. A menina deve aprender a conhecer seu corpo”, diz ela.

Liberal – À primeira vista, pode parecer que o resultado do estudo não se aplica à realidade nacional, mas o mais provável é que no País a descontração seja apenas um rótulo, quando a questão é a sexualidade feminina. “A mulher brasileira é mais liberal na expressão, mostra o corpo, se solta socialmente, mas na intimidade continua retraída. Ainda não cresceu eroticamente. A maioria não se toca, não se masturba e fantasia pouco”, diz Gerson Lopes, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Um levantamento feito pelo Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com mulheres de todo o Brasil dá conta de que 43% delas relatam alguma queixa sexual, ou seja, não se sentem satisfeitas com a sua vida na cama. Para melhorar esse quadro, uma boa medida, como sugerem a sexóloga belga e as amigas liberadas de Charlotte, pode ser uma lição de anatomia na frente do espelho. E também (por que não?) uma breve consulta ao dicionário para tirar a dúvida de fonética que embaraça até mesmo os ginecologistas: clítoris ou clitóris? Quem tentar vai ver que a ordem dos acentos não altera a importância da descoberta.

Fonte: Texto de Rita Moraes, para a ISTOÉ Online © 2004 Editora Três

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Intrometida que só, Senhorita D.V. não poderia deixar de dar seu pitaco… então…

Com a palavra, Srtª D.V.:

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O clitóris dela não precisa de acento, mas precisa inchar na minha boca.

Quando ela se arreganha para MIM, seu sexo se esfregando em MIM, fazendo pulsar, molhando minha boca, eu entendo o que é o paraíso.

Quero ela desonesta, mundana, vadia, gozando, sendo a MULHER que ela deseja, na minha boca, no meu corpo, quero assistir filmes pornôs, beber licor, ler contos obscenos, ver pintos, bucetas, tudo junto DELA.

Quero ela delirando, rebolando, enlouquecida vivendo SUA natureza, na minha cama, no meu chão, no meu corpo.

Quero arrebentar minha calcinha e enfiar a boca macia dela em MIM.

Quero ela suando, gemendo, se esfregando em cima de MIM.

Meu sexo inchado dolorido.

Puxa meu clitóris, morde, manipula, bate uma punheta deliciosa no meu corpo.

Usa.
e
Abusa.

Sensual, erótico, extremo, delicioso.

Sacia mesmo, LIBERTA.

Me dá TEU clitóris, que te dou MINHA alma.

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© UVA NA VULVA 2008 - Texto Srtª D.V.

Postado por BF.

22.07.2008

[15:31:46]

NEM IGUAL, NEM NORMAL, SER DIFERENTE É NATURAL

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DRAG KINGS: BRINCANDO COM OS GÊNEROS

O Drag King, de uma certa forma, não expõe simplesmente os desejos ditos “anormais” ou “gêneros anormais”, ele brinca com o que já é perverso no normal.¹

Este texto é produto de minha pesquisa de pós-doutorado, realizada na New York University (NYU) de setembro de 2001 a julho de 2002. O alvo dessa pesquisa foi a comunidade transgender, termo guarda-chuva usado para designar as pessoas que desafiam os papéis rígidos desempenhados pelos gêneros. Dentre a diversidade que compõe essa comunidade, gostaria de privilegiar aqui a atuação dos Drag Kings, para esta mesa sobre “Representações de Gênero: significados singulares e plurais”.

Escrito por Judith Halberstam e com fotos de Del LaGrace Volcano, The Drag King Book aponta no primeiro capítulo a dificuldade de conceituar o termo. Entre as inúmeras tentativas, gostaria de citar a seguinte: “um performer que transforma a masculinidade em seu show”.²  Este performer pode ser uma mulher heterossexual que assume uma persona masculina apenas para fazer o show, ou uma butch que encontra uma forma de expressar sua masculinidade. Cumpre ressaltar que o Drag King, assim como a Drag Queen, pode fazer uso apenas do palco para existir como também, ao inverso, fazer uso do drag para existir.

No dia 27 de fevereiro de 2002, participei do evento “Performing Gender: A conversation with Judith Halberstam and Drag King Dréd Gerestandt”, organizado pelo Barnard Center for Research on Women. A professora de Literatura da Universidade da Califórnia assinalou em sua palestra que as transformações de gênero na história coincidem com o surgimento de male impersonators, e citou, como exemplo, a época vitoriana e os anos 20. Do ponto de vista de Halberstam, os estudos queer se desenvolveram em estudos culturais. Levando em consideração seu campo de pesquisa, ela considera o Drag King um bom exemplo de participante sub-cultural. Cabe ao teórico, ao seu ver, coletar material, produzir interpretação além do mainstream, e trabalhar como historiador para registrar a atuação do participante da sub-cultura.

Judith Halberstam mencionou que o tema de sua palestra era “Perigos e prazeres da colaboração”, devido ao seu interesse na relação entre a academia e a sub-cultura. Naquele momento, ela estava colaborando em um filme sobre Drag Kings que, no seu ponto de vista, não poderia ser classificado de documentário, uma vez que o cenário era falso. Halberstam localiza os Drag Kings nos anos 90 e os associa às pessoas brancas e à comunidade lésbica. A professora de literatura enfatizou que não relaciona os Drag Kings aos FTM (Female-to-male transsexuals), mesmo porque os próprios transexuais avaliam os Drag Kings como uma humilhação para a sua comunidade por tratarem, de forma lúdica, a questão do gênero. De acordo com Halberstam, os Drag Kings capturam tanto a potencialidade como a probabilidade da juventude. Observando atentamente as fotos tiradas por Del LaGrace Volcano no livro acima mencionado, pude constatar que os Drag Kings são interpretados por mulheres jovens.

Entretanto, este evento estaria incompleto sem a presença de um Drag King para dialogar com a professora da Universidade da Califórnia. Considerada como uma das performers mais inspiradas de Nova Iorque, Dréd Gerestant é cantora, atriz, modelo e “ilusionista de gênero”. A famosa impersonator afro-americana abriu sua fala com a afirmação: “É natural ser diferente”, seguida de um discurso em que defendeu a liberdade de gênero assim como questionou os conceitos de masculinidade e feminilidade.

O que chamou a minha atenção na performance de Dréd foi sua capacidade de materializar esse questionamento, ao desempenhar tanto papéis masculinos como femininos. Utilizando-se de perucas, roupas e acessórios apropriados, ela se transforma em frente à platéia – o que também contribui, a meu ver, para esse questionamento. Mas isso não é tudo. Dréd admitiu em público que algumas pessoas pensam que ela é MTF (Male-to-female transsexual). De fato, ela tem uma aparência andrógina, com seu corpo negro esbelto e rosto assexuado. Por conseguinte, ela é extremamente convincente quando representa tanto como homem quanto como mulher - ela tem physique du rôle. Desempenhando o papel de mulher, ela coloca uma peruca vermelha, usando apenas um soutien vermelho de couro e short preto. Vestida desta forma, ela tira uma maçã de seu short e morde a fruta. “Toda vez que eu mordo a maçã estou reivindicando meu lado feminino”, ela afirmou orgulhosamente. Gostaria, no entanto, de ressaltar uma diferença. Quando ela representa ao som da música “A Natural Woman (You Make me Feel Like)”, interpretada por Aretha Franklin, ela atribui um significado diferente à essa música, já que “a mulher natural” é construída, passo a passo, na frente do público. Conseqüentemente, ela desconstrói, de forma lúdica, o conceito de “mulher natural”. No que diz respeito ao seu lado masculino, Dréd declarou em uma entrevista para o Drag King Book: “Quando estou em drag parece natural, porque eu tenho muita energia masculina”.³  Não surpreende, portanto, ela representar tão bem personagens como Marvin Gaye e Shaft. Ao observar seu show, tornou-se claro para mim que ela constrói e desconstrói ambos os gêneros com muita facilidade e habilidade. Sob meu ponto de vista, Dréd Gerestandt consegue corporificar o conceito de “fluidez dos gêneros”.

No dia 21 de junho, tive a oportunidade de assistir ao Sir Real’s “Reality Show” no WOW Café Theater localizado no East Village. Os Drag Kings deste espaço já consagrado se reúnem com o objetivo de eleger o tema do mês e desenvolver seus shows em torno do tema escolhido. O tema do mês de junho foi “High School Romance”. A melhor performance do show, na minha opinião, foi a de Brandon Iron. Este Drag King, personificado por uma aluna da NYU, vestia um chapéu de palha, botas e jeans. Ele tinha uma barba feita com maquiagem e uma mancha de batom em seu rosto. Sem sombra de dúvida, um dos mitos norte-americanos mais machistas é o do cowboy do oeste. Ao som de uma canção do oeste, Brandon Iron fazia trocadilhos sexuais com as expressões “save a penny” e “ride a cowboy”. Considero esta performance uma forma de desconstruir este mito, uma vez que Brandon Iron claramente “diz” para a público que masculinidade não é um privilégio dos homens. A propósito, este é o ponto principal de outro livro da já citada Judith Halberstam. Em Female Masculinity4, a autora argumenta que a masculinidade existe sem os homens, ao convidar o leitor a separar o conceito de masculinidade do corpo masculino. É surpreendente observar a multiplicidade de expressões de gênero que variam de identidades pré-lésbicas às performances de Drag Kings, incluindo a discussão sobre lésbicas stone-butch e male-to-female transgenders.

Gostaria também de acentuar no Reality Show a performance do apresentador. Sir Real deu início ao show vestido como uma femme, usando saia e blusa e uma peruca loura. Ao olhar para este Drag King, eu tive um impacto, pois somente então pude entender o que já havia lido em alguns livros. Quando uma mulher masculina se veste como femme, ao invés de parecer feminina, ela parece um homem gay em drag. Pois sua forte expressão de gênero prevalece, já que não pode ser suprimida por uma saia, cabelo longo e uso de batom. Por conseguinte, eu cheguei à conclusão de que não faz sentido nenhum o que a sociedade de consumo vem pregando. Nós, mulheres heterossexuais, não precisamos comprar roupas caras, maquiagem e acessórios com o objetivo de nos tornarmos femininas para, então, sermos o objeto do desejo masculino. Aprendi que a feminilidade não está localizada no exterior; ela é, ou não, a expressão de gênero de uma mulher. A feminilidade não pode ser adquirida através do uso de roupas ou de adereços ditos “femininos”. Ao longo do Reality Show, enquanto apresentava os Drag Kings e outros artistas performáticos, Sir Real ia tirando gradualmente seus itens femininos até ficar reduzido à roupa intima. Naquele momento, retirou o soutien e pediu a uma pessoa da platéia para ajudá-lo a enrolar seu busto em papel celofane e começou, também gradualmente entre as apresentações, a se vestir como um Drag King, com calça jeans, camisa e sapatos masculinos. A platéia pôde claramente visualizar o que é um Drag King e como ele se veste para a apresentação. Creio que ver este show me ensinou mais sobre Drag Kings do que provavelmente ler sobre eles.

Em “Curtain Call”, o último capítulo de The Drag King Book, Judith Halberstam estabelece as diferenças entre as performances de Drag Kings, ao discutir a contribuição dos impersonators para este aspecto da sub-cultura:

Como tentei demonstrar neste livro, não existem  relações essenciais entre ser uma pessoa masculina e representar como um Drag King, mas existe alguma relação entre representar a masculinidade e diminuir os elos naturais entre masculinidade e homens. Quando femmes ou mulheres heterossexuais femininas representam como Drag Kings, elas experimentam o privilégio masculino negado no dia a dia, e produzem uma mistura camp de feminilidade e masculinidade. Quando butches representam como Drag Kings, elas criam uma nova masculinidade, em torno de suas masculinidades cuidadosamente cultivadas e tendem a criar efeitos de realidade e efeito masculino convincente… 5

(…)

Finalizo meu texto tecendo o seguinte comentário sobre a epígrafe. Não existem desejos “anormais” ou gêneros “anormais”. A perversidade existente reside no conceito de normalidade que restringe o gênero a apenas duas categorias.

DRAG KINGS: BRINCANDO COM OS GÊNEROS - BERUTTI, Eliane Borges - UERJ

Notas:

¹ HALBERSTAM, Judith e VOLCANO, Del LaGrace. The Drag King Book.  London: Serpent’s Tail, 1999. p. 152  Minha tradução assim como todas as demais.
² Ibid, p. 36
³ Ibid, p.120
4 HALBERSTAM, Judith. Female Masculinity. Durham: Duke University Press, 1998.
5 HALBERSTAM e VOLCANO, Op. cit., p.150

Fonte original: http://www.rj.anpuh.org/Anais/2002/Comunicacoes/Berutti%20Eliane%20B.doc

Obs.: os destaques em negrito foram adicionados durante a edição do texto para a publicação neste site.

Postado por BF.

07.06.2008

[18:11:13]

CASSANDRA - O NOSSO ANJO PORNOGRÁFICO DE SAIAS

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Pioneira da literatura lésbica no Brasil, Cassandra Rios foi considerada moralista por escancarar estereótipos e preconceitos em linguagem popular

O sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios, no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma direta e sexualmente explícita.

Tamanha ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial. Cassandra Rios, nascida Odete (1932-2002), tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos, resistindo inclusive à implacável censura imposta durante a ditadura militar (1964-1985).

Populares, em prosa simples quando não vulgar, veiculadas em livros baratos com capas provocantes e títulos chamativos, suas obras surpreendiam e cativavam um vasto número de leitores. Cassandra Rios chegou a vender 300 mil exemplares em um ano, transcendendo o público exclusivamente lésbico ou mesmo feminino.

Como explicar essa aceitação? Talvez, justamente por seu estilo ousado e extrovertido. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher, e apresentando essa vivência como um caminho possível para a vida afetiva e amorosa. Quando seus livros foram publicados, a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) estava longe de existir, não havia organizações de homossexuais, e nem mesmo os meios de comunicação publicavam conteúdo erótico. Em uma sociedade patriarcal e machista, a maternidade ainda era considerada o principal papel feminino. Razão pela qual, embora um sucesso de vendas, seus livros sempre foram encarados como marginais.

A homossexualidade só aparecia, na literatura do final do século XIX e da primeira metade do XX, associada a três tabus: o pecado, a patologia e o crime. Esses elementos não estão ausentes da narrativa de Cassandra; pelo contrário: aparecem como formas de preconceito que suas personagens enfrentam. Por isso, as minorias sexuais, que não eram sequer pensadas como tal no Brasil daquela época, perceberam naqueles livros uma oportunidade de verem retratados aspectos de seu cotidiano.

O primeiro romance de temática lésbica a alcançar repercussão nacional foi o livro de estréia de Cassandra Rios, A volúpia do pecado, lançado em 1948. Nele, as personagens Lyeth e Irez buscam no dicionário um termo que defina seu comportamento — elas próprias questionavam a normalidade de um amor diferente dos padrões de sua época. A idéia de que o termo “lésbica” correspondia a um pecado está intimamente ligada ao amor homoerótico nesta obra: “Vinham-lhe à mente os nomes proferidos por dona Margot atribuídos às mulheres que se amavam como elas. Curiosas, consultaram o dicionário: Homossexuais, Tríbadas, Lesbianas! Seriam elas? (…) Queriam saber o porquê de um amor tão desnatural”, escreveu Cassandra.

Em Eudemônia, de 1956, o panorama é diferente: a protagonista vai parar em uma clínica psiquiátrica. Por trás da trama erótica, o que se lê é um retrato do fenômeno da divulgação da psicanálise, em especial da chamada “questão sexual”. Nessa história, a lésbica assumida se submete a um tratamento clínico que considera seu comportamento uma perversão sexual. O psiquiatra procura convencê-la a mudar: “Senhorita Eudemônia, todos aqueles que quiseram libertar-se do instinto pervertido foram bem-sucedidos em nossas clínicas. Tornaram-se criaturas normais e muitos deles hoje têm seu lar e até filhos”.

Seus livros revelam também elementos de transformação histórica: ao retratar um grande número de mulheres urbanas ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970, as obras indicam mudanças de comportamento das homossexuais femininas nesse período. Em Eu sou uma lésbica, de 1979, um baile de carnaval revela a postura mais assumida de gays e lésbicas, o que gerava forte reação contrária. A personagem vê um casal ser retirado à força do salão: “Meu carnaval estava acabado. (…) A bicha, gritando com sua voz esguaniçada coisas que eu nunca ouvira antes, sendo posta para fora; a machona, carregada pelos guardas escada abaixo”. Essas atitudes ainda eram encaradas como caso de polícia.

Apesar do preconceito, na década de 1970 a minoria homossexual passou a se fazer mais visível no Rio de Janeiro, e a ficção de Cassandra trazia várias referências reconhecíveis para quem freqüentava esse submundo. Nos livros Marcella (1975) e Anastácia (1982), por exemplo, aparece o fictício Aço’s Bar, uma alusão ao Ferro’s Bar, ponto de reunião desse público. Em várias outras obras, personagens se encontram em uma certa galeria sem nome, mas facilmente identificável: era a Galeria Alaska, tradicional reduto gay de Copacabana.

Durante a ditadura, a literatura erótica de Cassandra Rios tornou-se alvo certo para os censores. Produções vistas como pervertidas e pecaminosas eram desvios que precisavam ser combatidos pelo Estado. Resultado: trinta e seis dos seus quase cinqüenta títulos foram proibidos na época.

Na maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979), em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo. Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino.

Tachada de “pornográfica”, a literatura de Cassandra Rios não mereceu qualquer esforço de crítica naquele período. Porém, se ela não primava pelo rebuscamento do estilo, tinha o inegável mérito de descrever de forma aguda os conflitos subjetivos vividos pelos personagens: seus temores, questionamentos, e o preconceito já internalizado.

Em tempos de “politicamente correto”, se comparados à literatura lésbica atual — como nas coleções “Edições GLS” (Summus) e “Aletheia” (Brasiliense) —, seus escritos podem parecer moralistas ou mesmo condenatórios ao lesbianismo (sic). Afinal, ela se utilizava dos códigos culturais vigentes, cheios de preconceito, para narrar experiências afetivas fora dos padrões da sociedade heterossexual. Lançava mão de termos comuns aos estereótipos com os quais a sociedade, de maneira geral, se referia às homossexuais, como “machinha”, “sapatão”, “corça” e lésbica.

Mas esta escolha de narrativa, longe de significar moralismo, revela um caráter transgressor, uma opção pelo enfrentamento: utilizar os códigos conhecidos para compor uma nova abordagem do tema. A intenção é inserir o amor entre mulheres e a existência destas personagens no mundo concreto, com termos que são de domínio público, em vez de adotar uma linguagem compreendida apenas no ambiente homoerótico. E ela nem poderia fazer diferente, pois buscava o máximo de divulgação para suas obras.

A partir dos anos 1990, a literatura homossexual feminina assume um perfil engajado, de afirmação positiva dessa minoria. Ao privilegiar protagonistas atraentes e bem-sucedidas, acaba enquadrando o lesbianismo (sic) nos padrões hegemônicos na sociedade, com seus valores heterossexuais e mercadológicos. Um discurso que pode ter boas intenções políticas, mas faz alusão a um mundo artificial, distante do cotidiano concreto dos homossexuais.

“Ultrapassadas” ou “pornográficas” que sejam, as narrativas de Cassandra Rios apresentam um quadro muito mais verossímil da situação social e emocional das lésbicas de seu tempo.

© Texto, Adriane Piovesan - para a Revista de História

ADRIANE PIOVEZAN é Mestre em Estudos Literários pela UFPR e autora da dissertação “Amor romântico X Deleite dos sentidos: Cassandra Rios e a identidade homoerótica feminina na literatura” (UFPR, 2006).

Postado por BF.