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Um Outro Olhar número 9
novembro de 1989/janeiro de 1990

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[a imagem abaixo é meramente ilustrativa]

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1979-1989:
10 anos de movimentação lésbica no Brasil

Míriam Martinho

Falar dos últimos dez anos de ativismo lésbico, em apenas um artigo de boletim, não é tarefa fácil. Mesmo tendo optado por enfocar apenas os pontos mais marcantes da trajetória percorrida, ou seja, aqueles que determinaram mudanças significativas no rumo dos acontecimentos, sei que não darei conta de transcrever toda a imensa gama de experiências, sentimentos e aprendizados ocorridos.

Apesar disso, decidi assumir o desafio do empreendimento com o intuito não só de deixar um registro da história lésbica recente, como também para que este possa servir como possível referencial para futuros trabalhos ou para outros grupos lésbicos. Esclareço, ainda, que o histórico a seguir refere-se fundamentalmente aos grupos de que participei, a saber, o GRUPO LÉSBICO-FEMINISTA (LF) e, em particular, o GRUPO Ação LÉSBICA-FEMINISTA (GALF), embora tenham existido outros grupos, de estrutura mais informal, que citarei no final deste artigo.

SOMOS-LF : 1979-1981 - ASSUMINDO

No final da década de 70 (1978), inicio da chamada abertura política brasileira e, por certo, como reflexo da organização homossexual, em todo o mundo, surgem o jornal Lampião da Esquina, no Rio, e o grupo SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), em São Paulo.

Minha aproximação do Somos se deu por meio do convite de uma amiga para que comparecesse a um debate, sobre minorias, que ocorreria, na Universidade de São Paulo (USP), no começo de 1979. Com a namorada de então, fui ao debate e tive oportunidade de entrar em contato com os rapazes do Somos bem como com algumas mulheres que, posteriormente, viriam a fazer parte do Movimento Homossexual.

Um pouco depois do debate, passamos a freqüentar a casa de um dos integrantes do grupo e as reuniões que lá aconteciam periodicamente. Fomos das primeiras mulheres a ingressar no Somos e a ter uma atuação significativa. Nesta fase, alimentado por artigos publicados no Lampião, o grupo cresceu espantosamente com as reuniões atingindo um número de até cem pessoas que se aglomeravam, onde possível, para trocar experiências pessoais e afirmar sua homossexualidade. Mais mulheres passaram a integrar o grupo e logo nossas diferenças com os homens despontaram, levando, progressivamente à separação.

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A partir de reuniões exclusivamente femininas, organizadas com o objetivo de escrever um artigo sobre lesbianismo, para o Lampião de maio de 79, algumas de nós sentiram a necessidade de criar um subgrupo, só de mulheres, dentro do SOMOS, não apenas pela consciência de nossa especificidade, enquanto mulheres e lésbicas, mas também para fazer frente ao machismo dos “bichas” (como costumávamos chamá-los) que não era brincadeira.

Demos, ao subgrupo, o nome de Lésbico-Feminísta (LF) e fomos, pouco a pouco, nos separando efetivamente do SOMOS e nos aproximando do Movimento de Mulheres. Evidentemente, essa independência era vista, pelos homens, como divisionista, e, em conseqüência, não transcorreu tranquilamente. Muitos atritos e ressentimentos ocorreriam de ambos os lados, embora nunca atingissem o nível de hostilidade que fomos obrigadas a encarar no Movimento Feminista. Neste, à parte pequenas reuniões com grupos e ativistas independentes, estreamos mesmo durante o II Congresso da Mulher Paulista, em março de 1980, para divertimento de umas poucas e desespero da maioria que nunca havia visto lésbicas assim tão públicas e não sabia o que fazer com tal escândalo.

Enquanto não decidiam, fomos ficando e nos considerando, cada vez mais parte do Movimento de Mulheres e não tanto do Movimento Homossexual. A ratificação deste posicionamento viria com a separação definitiva do SOMOS, em 17 de maio de 80, quando deixamos de ser subgrupo para nos tornarmos um grupo independente.

Nosso namoro, com o Movimento Feminista (MF), por seu lado, teve seu ápice durante o Encontro de Grupos Feministas, em Valinhos, interior de São Paulo, em junho de 80. Lá os últimos senões a nossa presença foram rechaçados pelas integrantes mais “progressistas” do próprio movimento e, lá também, os primeiros sinais de divergência interna começaram a surgir.

O Grupo Lésbico-Feminista voltou de Valinhos bem cotado, indo, inclusive, dividir uma sede, no bairro paulista de Pinheiros (Rua Fidalga), com o grupo Brasil-Mulher, que fora, a princípio, um dos mais contrários a sua participação no MF. Entretanto, embora realizando atividades externas constantes e com um projeto de jornal articulado, para breve, além de núcleo de artes, o LF não conseguiu superar as divergências pessoais, entre suas integrantes, sofrendo um “racha”, já no final de 1980 (outubro), que levou algumas de suas dissidentes para o incipiente grupo SOS-MULHER e outras para a formação do TERRA-MARIA, OPÇÃO LÉSBICA que não vingou.

O LF ainda prosseguiu, até outubro de 1981, inclusive publicando o número 0 do jornal ChanacomChana e participando de outros eventos feministas e homossexuais, mas não resistiu ao desgaste de suas militantes e aos ataques de suas dissidentes que, agora, no SOS-MULHER não viam mais muita razão para a existência de um grupo especificamente lésbico.

CONSIDERAÇÕES POLÍTICAS

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Analisar esta primeira etapa de movimentação lésbica é importante tanto para entender o que não deu certo quanto para entender o percurso e os percalços do grupo lésbico que viria a seguir, o GALF (GRUPO AÇÃO LÉSBICA-FEMINISTA).

Com o fim do Grupo Lésbico-Feminista, a maioria de suas integrantes ou deixou de militar, ou transferiu-se definitivamente para o SOS-MULHER, grupo que, apesar de lutar contra a violência contra a mulher, propunha implicitamente o enrustimento para as lésbicas que o compunham, mesmo o enrustimento, quer dizer, a invisibilidade, sendo uma das maiores violências que a sociedade nos impõe. Como o grupo tratava basicamente com mulheres heterossexuais, de todas as classes, temia-se que a explicitação do lesbianismo (sic) as afugentasse. O resultado desta política, de uma perspectiva lésbica, chegava a ser patético, pois, embora formado majoritariamente por mulheres homossexuais, o SOS abordava todos os tipos de violência, Sofridos pelas mulheres, menos os referentes à vivência da maioria de suas integrantes.

Para entender porque as lésbicas do SOS acatavam essa situação, vale a pena voltar um pouquinho atrás e retraçar, ideologicamente, a trajetória do LF dentro do Movimento Feminista.

Após o impacto inicial do aparecimento do LF, no movimento, este último adotou, consciente ou inconscientemente, a tática de abrir espaços de aceitação individual, para as integrantes do grupo, ao mesmo tempo que despolitizava a questão do lesbianismo (sic). Considerando que a aceitação é para as lésbicas, mais do que para outros segmentos discriminados, um verdadeiro calcanhar de Aquiles, a tática mostrou-se exemplar, pois aquelas que “morderam a isca”, zelosas do posto recém-conquistado, tornaram-se verdadeiros cães de guarda da despolitização, atacando, ferozmente, as antigas companheiras que permaneciam mobilizadas.

O pretexto ideológico, para a despolitização, era a noção de que grupos especificamente lésbicos criavam uma “identidade lésbica”, coisa - segundo elas, é claro - cerceadora da sexualidade, pois “naturalmente”, hoje você pode estar com uma mulher, amanhã com um homem, como quem troca de roupa, e isto não tem qualquer implicação social, política, econômica, ou cultural, tratando-se apenas de uma questão de “opção sexual”, ou seja, de cama, portanto, assunto privado para ser resolvido, entre as quatro paredes de um quarto, e não através de ação coletiva.

Evidentemente, fica difícil sustentar este ponto de vista quando, no mínimo, se observa os efeitos terríveis do preconceito sobre as vidas das lésbicas. Por conseguinte, tornava-se imprescindível minimizar o preconceito e, até mesmo, banalizá-lo, dissolvendo-o na questão da discriminação às mulheres, em geral, e simultaneamente caracterizando as posições contrárias à despolitização, como “radicais” e ultrapassadas.

Este tipo de visão, que conduz as lésbicas a uma alienação de sua própria realidade, foi, de fato, bem mais produto da necessidade das feministas que haviam se “tornado” lésbicas, no contato com o LF, de manterem suas novas “preferências sexuais” em sigilo, do que de uma visão de libertação de quaisquer possíveis identidades limitadoras.

As conseqüências desta política ainda se fazem sentir nos dias de hoje, embora não de maneira tão forte, e são responsáveis, em parte, pela inexistência de qualquer outro grupo lésbico-feminista, além do GALF, que perdurasse, ao longo de dez anos.

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