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”Alguns querem tirar o vermelho do arco-íris”.

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“Os meus sonhos
Foram todos vendidos

Aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Freqüenta agora
As festas do “Grand Monde”…

Ideologia!
Eu quero uma prá viver”

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O UNV me pediu um depoimento pessoal sobre os episódios que ocorreram na Parada GLBTT no último domingo, sobre o veto político e repressão ao carro da Conlutas, aos quais presenciei.

Fiquei pensando no que poderia dizer, além do que o grupo de trabalho GLBTT da Conlutas disse em suas notas, com as quais concordo. Então, achei que poderia compartilhar com os leitores do UNV três momentos, daquele que pra mim foi um longo dia, e três reflexões ou questionamentos a que eles me levaram.

Antes de mais nada, deixa eu me apresentar. Eu sou Helena Fontana, jornalista responsável pelo jornal Opinião Socialista. Sou socialista, feminista e bissexual. Nas horas vagas, quando dá, tento dar uma força para que a literatura com temática lésbica avance: ajudei a organizar o “Elas Contam”, um livro de contos com essa temática e, quando consigo, ajudo a promover debates ou a divulgar os livros de várias autoras.

Bom!..Em abril deste ano, ocorreram dois eventos simultâneos: um Encontro Nacional de Mulheres e uma reunião nacional GLBTT, ambos organizados pela CONLUTAS. Eu fui convidada a participar de uma mesa de debate sobre conjuntura política nacional no Encontro de Mulheres e pude também acompanhar a Plenária de abertura desta reunião GLBTT. Foi aí, que sugeri aos coordenador@s do GT- GLBTT da Conlutas, que tentassem inscrever um carro na Parada para que, por dentro da mesma, pudesse se expressar uma visão classista e socialista da luta contra a homofobia, que é essencialmente diferente daquela que defende a APOGLBT. Mesmo sabendo que a expressão destas posições seria semi-cerceada pelos limites questionáveis de expressão que o contrato da APOGLBT impõe, pensava que apesar dos limites seria possível e positivo ter um carro e um bloco que afirmasse o espírito combativo original do dia do Orgulho Gay e isso pudesse reaglutinar e reviver um espírito militante em muita gente que está dispersa e até sente-se impotente, na medida em que a militância, o ativismo, a espontaneidade e entrega a uma luta, sem fins mercadológicos e financeiros, tem sido afastada e desvalorizada pela crescente mercantilização e privatização deste evento. Foi com esse espírito que uma ampla galera GLBTT que atua em diferentes setores (metalúrgic@s, professor@s, bancári@s, metroviári@s, estudantes, entidades GLBTTs, movimentos populares) se engajou na construção desse bloco.

Eu me somei à iniciativa deles e estaria às 12 horas no MASP, ponto de encontro acertado para encontrar o 4º carro. Porém, logo às 8 horas da manhã recebi um telefonema de um amigo da CONLUTAS, que estava na concentração dos trios para vistoria na avenida do Estado, me informando que a segurança da APOGLBT estava dizendo que não tínhamos contrato e que não poderíamos seguir. Eu, então, fui ajudar a mobilizar advogados amigos e contatar meio mundo, para irem para lá, com o contrato em mãos. Como o contrato existia e eles sabiam disso, enrolaram por duas horas o carro, mas com essa desculpa não puderam segura-lo até o final. Quando eles liberaram o carro, pensei que, afinal, poderia ter sido tentativa de veto de um setor, mas que tinha sido superado. Ledo engano.

Já na avenida Paulista, argumentaram que faltava uma corda em torno ao carro e que teríamos que sair. Trouxemos a corda. A essas alturas, estávamos na Paulista com a Joaquim Eugênio de Lima, como 14º carro e não mais como 4º, como constava na lista oficial da Parada. Uma parte do ativismo, contatado por telefone, conseguiu ir até a Eugênio de Lima. Boa parte estava no MASP, sem saber que a direção da APOGLBT estava criando problemas com o trio da CONLUTAS.

Depois de colocada a corda, a Polícia continuou dizendo que tínhamos que sair e não sabia dizer porque. Nós mostrávamos a ela o contrato e ela ligava para a organização e só sabia nos dizer que não estávamos autorizados e que iam prender o motorista do carro de som. Enquanto isso, tentávamos falar com a direção da APOGLBT, que não nos atendia.

Aí, começamos a ter clareza de que iriam nos tirar de qualquer jeito à força. Decidimos então dividir tarefas entre os que estavam ali. Eu e outro companheiro fomos contatar a imprensa para, em primeiro lugar, com a presença dela tentar evitar que nos tirassem à força e no caso de tirarem, tentar ter cobertura e repercussão. Contatamos também mais advogados. E decidimos que deveríamos resistir à prisão, porque ela era injusta, ilegítima e ilegal.

Ainda como última tentativa de garantir o trio, a pedido nosso, a polícia ligou para os organizadores, que não quiseram falar conosco e reiteraram à Polícia a ordem de nos retirar.

Quando a imprensa chegou, a pancadaria já estava instalada e o trio havia sido retirado. Em seguida prenderam quatro e seguiram distribuindo cacetadas. Neste momento, conseguimos evitar que Douglas, coordenador do GT, fosse preso e conseguisse ali mesmo dar uma entrevista à Folha de São Paulo.

Depois das prisões, reaglutinamos no meio da avenida a galera toda do bloco, vários estavam feridos. Foi quando nos demos conta que uma amiga minha tinha sido gravemente atingida e precisava ser levada imediatamente ao hospital.

Decidimos nos dividir para cuidar de diferentes tarefas. Saímos da Parada e uma turma foi cuidar dos presos junto com os advogados. Outra foi para a sede da CONLUTAS escrever uma nota sobre o ocorrido, um release para a imprensa, avisar tudo e todos que pudessem contar a verdade dos fatos e repudiar o ocorrido.

Essa foi a primeira parte daquele longo dia. E aí me dei conta de que a política da direção da APOGLBT de atrelamento aos governos e empresas, já chegou a um ponto em que o cerceamento por parte deles ao livre direito de expressão e manifestação aos que defendam uma lógica contrária ao mercado, tem que ser crescente e prá valer. Outra questão que me causou profundo espanto foi a relação da APOGLBT com a Polícia e vice–versa. Nunca vi, em mais de 20 anos de militância, a Polícia acatar ordens diretamente de uma empresa ou ONG privada. E menos ainda vi, alguma vez, alguma entidade do movimento ter poder de dirigir diretamente o comando da Polícia. A Polícia defende em última instância as empresas sempre, mas há em geral uma mediação: o Estado, a justiça. Ora, a APOGLBT diz que estamos vetados, nós temos um contrato que diz o oposto e apresentamos à Polícia. A Polícia pergunta à APOGLBT o que fazer e nos prende, atuando como segurança privada.

O segundo momento daquele longo dia, foi de militância junto com uma ampla Galera na sede da Conlutas para divulgar o ocorrido junto aos sindicatos e entidades do movimento e também tentar não deixar se impor uma versão mentirosa sobre os fatos na mídia, ajudar a cuidar da liberação dos presos, no sentido de enviar mais personalidades à DP onde eles foram presos, buscar levar também lá a imprensa, etc…

Quando se iniciava a noite, depois de uma ou duas versões erradas em sites, conseguimos virar e mostrar o outro lado. Aí também começou a chegar solidariedade do país inteiro. Por outro lado, já conseguíamos falar não apenas com os advogados, mas diretamente com os presos e demais lideranças que ficaram com eles até serem liberados. Só quando tivemos a certeza e confirmação de que eles estariam sendo liberados e já iriam se dirigir ao IML para fazer exame de corpo de delito, é que saímos da sede da Conlutas. Já passava das 9 da noite.

A nossa tarde, então, foi gratificante porque havia ali um espírito militante, solidário, orgulhoso e de esperança. Aquela confiança, força e moral de quem sabe que está certo, que sua causa é justa e que, apesar de perseguido, deve lutar e pode vencer. E saímos dali com a certeza de que deveríamos buscar articular mais movimentos e mudar essa situação que vem impondo a APOGLBT.

Depois de tudo, exaustos, a maioria sem comer o dia todo, saímos à pé pelo centro velho de São Paulo e fomos para a av. São João comer alguma coisa e tomar uma cerveja. O centro ainda estava cheio de gente. Parte daquela linda multidão que vai à Parada, ainda tomava as calçadas, os bares e as ruas nas imediações da Praça da República.

Brindamos quando os presos foram definitivamente liberados. Mais tarde, já em casa, recebo o telefonema de um amigo, que estava no Sujinho, na Consolação, informando que a Polícia estava jogando gás de pimenta numa multidão que ainda se encontrava por ali e depois jato d’água.

Era a prefeitura e o governo do estado, com quem a APOGLBT se dá tão bem, reprimindo agora mais diretamente um setor amplo da massa, para liberar o trânsito. Como a dizer: dentro “da nossa ordem” permitimos um dia para vocês terem visibilidade e fazerem carnaval. Depois, a vida tem que voltar ao normal e dá-lhe repressão…

O gás de pimenta da noite sobre os GLBTTS só confirma a conclusão primeira. Atrelar o movimento ao mercado e aos governos levará inevitavelmente a mais cerceamento da liberdade de expressão e manifestação e à hipocrisia também, porque não mudará a situação da maioria.

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A cronologia dos fatos:

A intolerância na comemoração do Orgulho Gay

http://www.uvanavulva.com.br/blog/2008/05/26/o-unv-denuncia-acolhe-e-protesta

A nota de esclarecimento da APOGLBT

http://www.paradasp.org.br/modules/news/article.php?storyid=460

A resposta da Conlutas a nota da APOGLBT

http://www.uvanavulva.com.br/blog/2008/05/28/o-unv-adverte-miopia-faz-mal-para-sua-cidadania

Mensagem enviada pelo Freedom Socialist Party (USA) em repúdio a ação da APOGLBT que resultaram nos incidentes ocorridos na 12ª edição da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo 2008.

http://www.uvanavulva.com.br/images/FSP-Protest-Lette-to-APOGLBT.doc