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Uma síntese do homoerotismo na literatura brasileira

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Por Antonio Naud Júnior

Na história da literatura universal, desde a sua origem aos nossos dias, não faltam celebrações à homossexualidade. Já no Brasil, a obra de conteúdo homossexual, freqüentemente, tem minimizado o aspecto artístico para se concentrar em julgamento moral (caso da reação popular em torno da telenovela “América”, de Glória Perez, em 2005). Felizmente, hoje já se é permitido avaliar com nitidez os caminhos do homoerotismo na literatura brasileira, embora não o veja como gênero literário específico. Superada a época em que tal temática não vendia ou era lida às escondidas, podemos ver agora, em saliência, no complexo contexto dessa literatura, o tecido próprio da arte dita transgressora.

Os escritores brasileiros passaram a escrever sobre esse universo delicado com os episódios de abuso sexual masculino em “O Ateneu” (1988), de Raul Pompéia, e lesbianismo em “O Cortiço” (1890), de Aluísio Azevedo, porém, o estopim do escândalo somente seria aceso com a publicação de “Bom-Crioulo” (1895), do cearense Adolfo Caminha. A audácia do autor custou o silêncio crítico sobre toda a sua obra. Ele narra o namoro entre dois marinheiros, um deles negro, inclusive com descrições de atos sexuais, utilizando vasta soma de informação obtida a partir de depoimentos, prestados em audiências jurídicas, relacionados com casos de sodomia na Marinha e no Exército. Em 1937, a Marinha solicitou, e obteve do presidente Getúlio Vargas, o embargo de uma nova reedição. Só noventa anos depois da primeira edição, a obra voltaria às livrarias e às bibliotecas públicas e escolares.

Em 1914, a revista Rio Nu publicou “O Menino de Gouveia”, de autor anônimo, conto ilustrado com a imagem nítida de dois homens praticando sexo anal. Cerca de 60 anos antes, o poeta romântico Álvares de Azevedo, ao morrer antes de completar 21 anos, deixaria uma apaixonada carta de despedida a um amante: “Luís, há aí não sei quê no meu coração que me diz que talvez tudo esteja findo entre nós […] há em algumas de minhas cartas a ti uma história inteira de dois anos, uma lenda, dolorosa sim, mas verdadeira, como uma autópsia de sofrimento. Luís, é uma sina minha que eu amasse muito e que ninguém me amasse. Assim como eu te amo, ama-me”. Na primeira metade do século 20, o autor da rapsódia “Macunaíma - Herói sem Nenhum Caráter” (1926), Mário de Andrade, mesmo receoso de enfrentar sua realidade sexual, escreveu sobre amores entre rapazes, tanto em contos como em crônicas. Numa das crônicas, diz: “É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou”. Ridicularizado por um machista Oswald de Andrade, Mário foi apelidado por esse de “o nosso Miss São Paulo traduzido em masculino”.

Provocando controvérsias, o sociólogo Gilberto Freyre declarou em entrevistas gostar da “fruta proibida”, enfurecendo a sociedade arcaica, que já havia acusado “Casa-Grande & Senzala” (1933) de pernicioso e pornográfico. A homossexualidade do poeta oficial Olavo Bilac e do inventivo cronista João do Rio também era conhecida. João do Rio, aos 18 anos, publicou dois contos gays: “Impotência” e “Ódio”. O solitário poeta baiano Sosígenes Costa, autor do clássico “Iararana”, escondia sua tendência homossexual. Menos tímidos, Aníbal Machado lançou “João Ternura” (1965) e Lúcio Cardoso, “Crônica da Casa Assassinada” (1959). Um dos maiores escritores da nossa literatura - além de poeta, cineasta e dramaturgo -, Lúcio se revelou no “Diário Completo” (1949-62): “O que ocultamos, é o que importa, é o que somos”. O injustamente esquecido Otávio de Faria manteve inéditos, até sua morte em 1980, “Atração” e “A Montanheta”, parte de sua “Tragédia Burguesa”;

Recuperada recentemente, a poesia homoerótica de Mário Faustino revela um bom poeta. Parceiro de juventude do polêmico jornalista Paulo Francis, ele morreu em 1962, num desastre de avião, aos 32 anos. Não podemos esquecer Paulo Hecker Filho, autor de “Internato” (1951). Em 1957, o carioca Jorge Jaime publicou “Monstro que Chora” (Dramas Homossexuais). Na capa, debaixo de uma frondosa árvore, um rapaz ajoelhado aos pés de outro, que posa de indiferente. O volume se compõe de duas obras. A segunda, a peça teatral “O Amigo”, fala de um jovem fascinado por um amigo, perdendo a noiva para ele e planejando vingança. A primeira parte é que dá título ao livro. Uma obra ousada, que em plenos anos 50 aborda abertamente esse tema ainda tabu. Nos anos 60 e 70 se falou muito de Cassandra Rios, que vendia em média trezentos mil exemplares anuais. Ela estreou aos 16 anos com “Volúpia do Pecado” (1948), financiado pela própria mãe. Perseguida pela rígida censura do regime militar e tachada de pervertida, teve trinta e seis livros proibidos. Sua obra mistura lesbianismo, religião e política, numa combinação explosiva. Muito famosa, aparecia em programas de tevê vestida de smoking. Terminou abandonando a carreira para se tornar messiânica, morrendo em 2002. Já a secreta vida sexual do mineiro Pedro Nava só foi sabida após o seu suicídio. No entanto, a união entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, registrada em cartas e no livro “Flores Raras e Banalíssimas” (1995), de Carmen L. Oliveira, era conhecida no meio literário. Elas viveram juntas por dez anos em Samambaia, perto de Petrópolis. O álcool destruiria essa relação. No romance “O Grupo / The Group” (1963), de Mary McCarthy, a baronesa lésbica é inspirada em Lota. Vange Leonel e Álex Leilla (“Henrique”, 2001) são nomes importantes na moderna literatura brasileira que aborda o assunto.

Entre 1978 e 1981, o Lampião da Esquina, um jornal porta-voz gay, projetou Aguinaldo Silva, Darcy Penteado e João Silvério Trevisan, este autor de “Devassos no Paraíso” (1986), a história da homossexualidade brasileira dos tempos coloniais até ao fim do milênio passado. Na introdução desse estudo fecundo que já nasceu clássico, Trevisan fala do homossexual como de alguém que instaura uma dúvida, “algo que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões da normalidade”. Aguinaldo Silva publicou em 1975, “Primeira Carta aos Andróginos”, um relato cru dos engates num cinema carioca. Darcy Penteado é autor de “A Meta”, 1976, coletânea de contos autobiográficos. Na mesma década de 70, surgiu a literatura do gaúcho Caio Fernando Abreu, o autor de “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990). Os seus contos são reveladores, destacando-se “Aqueles Dois”. O poeta potiguar Paulo Augusto escreveu “Falo” (1979), tocando nas idéias e comportamentos libertários da contracultura dos 70, caracterizando uma identidade que reivindica o lugar da diferença e contribuindo para que o indivíduo se liberte das amarras sociais e morais. Em 1993, a irreverente Hilda Hilst escreveu a história gay “Rútilo Nada”.

Outros nomes importantes para a compreensão do mesmo tema são os de João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Antonio Bivar, Herbert Daniel, Bernardo Carvalho, Luis Capucho, Jean-Claude Bernardet, Roberto Piva (que se classificou como “eu sou o jet-set do amor maldito”), Waly Salomão, Glauco Mattoso, Valdo Mota, Jomard Muniz de Britto, Ítalo Moriconi, Antonio Cícero, Ana Cristina César, Lima Trindade, Marcelino Freire e o argentino que vivia em São Paulo, Nestor Perlongher. Silviano Santiago, também poeta e ensaísta, não passou despercebido com “Stella Manhattan” (1985), enfrentando vergonha e culpa no romance “Uma História de Família” (1993). Herbert Daniel é autor do sincero e autobiográfico “Passagem para o Próximo Sonho” (1982), onde narra sua participação na guerrilha brasileira e seus problemas enquanto homossexual que, após fugir do Brasil durante a ditadura de 1964, acabou se empregando como porteiro numa sauna gay de Paris. Jean-Claude Bernardet, em parceria com Teixeira Coelho, publicou em 1993 a novela epistolar “Os Histéricos”. Bernardo Carvalho é autor do excelente volume de contos “Aberração” (1993). Capucho escreveu o erótico-pornô “Cinema Orly” (1999) e o capixaba Valdo Mota é um adepto da sodomia mística literária. Carlos Hee (“Trem Fantasma”, 2002), Nelson Luiz de Carvalho (“O Terceiro Travesseiro”, 2003) e Sílvio Corceau (“Vitrine Humana”, 2004) trouxeram para dentro de sua literatura a narrativa de suas experiências, de suas emoções, de uma sensualidade pulsante que motivou o interesse do leitor.

O meu “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, que será lançado ainda este ano, desenha perfis homossexuais em vários contos. O mesmo acontece com os romances, inéditos, “Homem sem Caminho” e “Fome de Amor”. O primeiro, uma versão contemporânea de “Carmen”, de Prosper Merimée, envereda pela atração fatal de um imigrante brasileiro por um cigano bandido, numa Andaluzia turística, prostituída e povoada por entidades espirituais. Além deles, escrevi ensaios sobre os autores homossexuais Yukio Mishima, Jean Genet, Christopher Isherwood, Paul Bowles, Manuel Puig, Reinaldo Arenas, Djuna Barnes, Virgínia Woolf, Lord Byron, Bernard-Marie Koltés e Federico Garcia Lorca.

Na dramaturgia, Nelson Rodrigues deu a senha do ladrão boliviano em “Toda a Nudez Será Castigada” (1965); Chico Buarque de Holanda imortalizou o travesti Geni em “A Ópera do Malandro” (1978) e Plínio Marcos marcou época com o marginal Veludo de “Navalha na Carne” (1967). Contudo, uma das mais importantes obras tupiniquins de vigor homossexual é “Grande Sertão: Veredas” (1956), em que Guimarães Rosa desenha a ambigüidade. Nesse épico da linguagem, o jagunço Riobaldo ama secretamente seu jovem parceiro Diadorim sem saber que ele é uma mulher masculinizada. O escritor italiano Claudio Magris, numa resenha publicada no jornal espanhol El País, disse se tratar de “uma das mais importantes histórias gays já escritas”.

Todos esses escritores, além dos julgamentos morais, deixaram-se conhecer, ou melhor, fomentaram nas palavras o desamparo do desconhecido, do verdadeiro, do valente. Questionando comportamentos, num estimulante embate entre o desejo e a denúncia, eles criaram uma talentosa literatura de vocação sensível e sensual, jamais banal ou pornográfica.

Antonio Naud Júnior é autor de “Suave é o Coração Enamorado” (2006), que pode ser encomendado no site www.vialitterarum.com.br E-mail: antonio_junior2@yahoo.com

Fonte by Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2207