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MINHA PRIMEIRA VEZ…

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Sempre desconfiei da minha predileção por mulheres, mas só recentemente, aos 41 anos, assinei meu habeas corpus. Aos 10 anos, apaixonei-me pela minha professora. Lá pelos 12 dei meu primeiro beijo na boca, de língua, numa prima distante. Adorei. Na televisão, a mulher biônica era a minha favorita. Aquela cicatriz perto dos lábios me fascinava. Apesar disso, e talvez por isso, casei aos 29 anos com um homem. Gostava da sua companhia, confesso. Mas algo faltava na cama. O tempo foi passando, eu tive uma filha, e a vida seguia sem graça e emoção. Sexo passou a ser supérfluo. Invariavelmente ficava no fim da minha lista de necessidades. Foram 12 anos de relacionamento hetero, como manda a sociedade, e muitas desculpas de dores de cabeça para fugir de um contato mais íntimo. Até de frígida ele me acusou. Insistia em procurar médicos. Aos seus olhos e pênis, eu era anormal. Até que uma mulher com quem trabalhei me tirou do prumo. Coração palpitante, mãos e calcinhas úmidas só em vê-la, conversar via msn ou imaginar uma proximidade maior. Esse sentimento sem precedentes foi a gota d’água para colocar um ponto final no faz de conta que era o meu casamento. Me separei sob a acusação de traição, com outro homem, é claro.

Tímida, sozinha e deslocada do mundo, procurei a net para iniciar meus primeiros passos no universo lésbico. Montei um fake no orkut. Queria conhecer mulheres, experienciar, pôr à prova meus reais desejos. Em pouco tempo, conheci uma mulher numa dessas comunidades relacionadas. A sua foto de apresentação e o jeito de escrever me chamaram a atenção. Foi um mês de conversa pelo gmail, regada a muita sedução. E sinceridade também. Desde o início, me senti muito à vontade e abri o jogo da minha vida. Relatei parte da minha história e a necessidade que sentia de me relacionar com outra mulher. Precisava me testar. Tocar e ser tocada por uma mulher. Marcamos encontro num hotel, depois de nos falarmos ao telefone, onde a sua voz me encantou.

Ela com mais experiência que eu, parecia mais ansiosa pela minha falta de experiência. Nos encontramos, nos olhamos, conversamos sobre nossas vidas, música e outras coisas. Eu estava aflita e com medo da minha própria reação (e da dela, confesso) ao primeiro beijo. Putz, será que vou sentir nojo? Para resumir, não desgrudamos uma da outra naquela noite a partir do primeiro encontro de lábios. Me foi tão familiar e delicioso. Uma cumplicidade sem igual como se a conhecesse há séculos. Será? Não chegamos a fazer tudo na cama logo no primeiro dia. Me sentia insegura demais para tanto. O fato é que estamos juntas há cinco meses e estou hiperapaixonada. A cada encontro, descubro mais e mais a meu respeito e nunca me senti tão mulher como nos últimos tempos. Estamos as duas dentro do armário, infelizmente. E como tenho uma filha, me viro ao avesso para conciliar nossos encontros, invariavelmente intensos e de troca mútua. Uma entrega de corpos e almas. Em diversas ocasiões, topei com a porta do meu armário entreaberta. É provável que um dia se abra. Para o sol entrar.

© Cris Harpen

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