30.07.2008

[12:36:29]

CLITÓRIS OU CLÍTORIS? (PARTE I)

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Não é apenas o nome das partes da genitália feminina que é desconhecido. Falar sobre a anatomia da mulher continua um tabu

Até mesmo Charlotte, uma das personagens modernas de Sex and the city, admitiu em um dos episódios da série que não conhecia bem suas partes íntimas ou, melhor dizendo – e adotando logo um caminho libertário –, sua vagina. Essa peculiar dificuldade feminina é também retratada no texto Os monólogos da vagina, de Eve Ensler, adaptado e dirigido no Brasil por Miguel Falabella. O que a autora registrou informalmente como conversa solitária poderia muito bem ter inspirado a pesquisa Os diálogos da vagina, realizada sob o patrocínio da Organon. O laboratório, no entanto, queria mesmo era medir a resistência das mulheres a adotar o Nuvaring, um anel vaginal contraceptivo com menos efeitos colaterais que a pílula, lançado no Brasil no início do ano passado. Mas tanto a comicidade do palco quanto o método científico comprovaram a mesma tese: a liberação sexual não habilitou a mulher a explorar e conhecer as particularidades de seu próprio corpo. Nem a referir-se a elas sem pudores.

Percepção – A pesquisa, divulgada no XVII Congresso da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia – Figo 2003, realizado em Santiago, no Chile, foi feita nos Estados Unidos com 1.117 mulheres de 18 a 44 anos, de várias etnias. O estudo examinou a percepção que as mulheres têm de sua vagina e a atitude em relação a ela. Apesar de 75% delas acharem que as mulheres, hoje, são capazes de falar a palavra vagina de forma mais livre, 47% consideram que qualquer discussão sobre ela deve ser feita de forma privada. Ainda assim, 35% se sentem desconfortáveis em fazer isso. Quase a metade das entrevistadas – 46% – acha que o órgão genital feminino é a parte do corpo sobre a qual elas têm menos informação e 24% não se sentem à vontade para tocá-lo. Sem falar que 49% nunca fizeram um exame pessoal da região.

O conceito feminino da vagina também deixa muito a desejar. Apenas 36% das mulheres ouvidas no estudo a descrevem positivamente, enquanto, ao serem perguntadas sobre como @s parceir@s se refeririam à parte íntima delas, 79% mencionam palavras de valorização. Segundo 37% delas, seus/suas parceir@s a qualificariam de sexy e para 24%, de bonita (apenas 9% delas usariam os mesmos termos). “Somos induzidas a pensar que a vagina é algo sujo, feio e pouco agradável. A sociedade vende a idéia de que temos que estar sempre ‘secas e frescas’ ou ‘cheirando a rosas’. As mulheres têm que se sentir bem com o odor natural”, defende a sexóloga belga Goedele Liekens, autora do livro 69 perguntas sobre sexo e a responsável por apresentar a pesquisa no congresso.

A especialista também considera um absurdo que a ditadura da beleza tenha chegado aos genitais. “Muitas mulheres querem fazer plástica nos grandes lábios porque se comparam a modelos que aparecem nas revistas masculinas. Elas não se dão conta de que a maioria dessas imagens é alterada por computador”, afirma ela. Goedele conhece bem o poder da mídia. Antes de sexóloga, foi Miss Bélgica e por muito tempo apresentou programas de televisão em seu país e na Holanda. Mãe de duas meninas, ela afirma que a mudança de conceitos deve começar em casa. “Ainda há mulheres liberadas, cheias de piercing e tatuadas, que não conseguem desenhar uma vagina. A menina deve aprender a conhecer seu corpo”, diz ela.

Liberal – À primeira vista, pode parecer que o resultado do estudo não se aplica à realidade nacional, mas o mais provável é que no País a descontração seja apenas um rótulo, quando a questão é a sexualidade feminina. “A mulher brasileira é mais liberal na expressão, mostra o corpo, se solta socialmente, mas na intimidade continua retraída. Ainda não cresceu eroticamente. A maioria não se toca, não se masturba e fantasia pouco”, diz Gerson Lopes, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Um levantamento feito pelo Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com mulheres de todo o Brasil dá conta de que 43% delas relatam alguma queixa sexual, ou seja, não se sentem satisfeitas com a sua vida na cama. Para melhorar esse quadro, uma boa medida, como sugerem a sexóloga belga e as amigas liberadas de Charlotte, pode ser uma lição de anatomia na frente do espelho. E também (por que não?) uma breve consulta ao dicionário para tirar a dúvida de fonética que embaraça até mesmo os ginecologistas: clítoris ou clitóris? Quem tentar vai ver que a ordem dos acentos não altera a importância da descoberta.

Fonte: Texto de Rita Moraes, para a ISTOÉ Online © 2004 Editora Três

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Intrometida que só, Senhorita D.V. não poderia deixar de dar seu pitaco… então…

Com a palavra, Srtª D.V.:

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O clitóris dela não precisa de acento, mas precisa inchar na minha boca.

Quando ela se arreganha para MIM, seu sexo se esfregando em MIM, fazendo pulsar, molhando minha boca, eu entendo o que é o paraíso.

Quero ela desonesta, mundana, vadia, gozando, sendo a MULHER que ela deseja, na minha boca, no meu corpo, quero assistir filmes pornôs, beber licor, ler contos obscenos, ver pintos, bucetas, tudo junto DELA.

Quero ela delirando, rebolando, enlouquecida vivendo SUA natureza, na minha cama, no meu chão, no meu corpo.

Quero arrebentar minha calcinha e enfiar a boca macia dela em MIM.

Quero ela suando, gemendo, se esfregando em cima de MIM.

Meu sexo inchado dolorido.

Puxa meu clitóris, morde, manipula, bate uma punheta deliciosa no meu corpo.

Usa.
e
Abusa.

Sensual, erótico, extremo, delicioso.

Sacia mesmo, LIBERTA.

Me dá TEU clitóris, que te dou MINHA alma.

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© UVA NA VULVA 2008 - Texto Srtª D.V.

Postado por BF.

23.07.2008

[12:40:13]

CATARSE - O TÉDIO DA PREVISIBILIDADE

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Eu estou velha. Ter 40 anos, Lésbica, e falar de desejo é ser E.T. As pessoas só sabem se reportar a MIM perguntando se sou PUTA.

Eu estava até querendo ser BEM PUTA, da minha mulher, mas como as lésbicas são muito delicadinhas, elas ficam ofendidas com meu jeito de ser.

Viva a masturbação, porque trepar com intensidade é PECADO. Transformar a nossa mulher na nossa puta é pecado também. A maioria destas mulheres são REPRIMIDAS e sublimam a sexualidade mal resolvida delas com essa PORRA de cerveja e com a obesidade.

E se você acha que eu estou errada é porque deve ser reprimida também. Se um dia você acordasse e tivesse FOME de pessoas, saberia do que estou falando.

Se você pensa diferente a MIM não interessa, porque todo dia meus “amigos” baunilhas me expressam o previsível. Para mim, esse DIFERENTE não é novidade.

Novidade é uma Lésbica (?) com fome.
A ilha de Lesbos afundou e eu não fui informada.
Hoje nem vomitando passa esse enjôo do previsível.

Eu, de tudo delicioso que já experimentei na vida, o mais precioso foi fundir-me numa mulher. O corpo, o toque, a pele macia, as palavras, o encaixar. Você tem que ser MUITO mulher para comer, devorar, sugar, penetrar uma mulher. Você tem que se bastar primeiro e depois conduzir a outra.

Não existe igualdade nas relações, desistam desta mentira. A igualdade é social, mas não afetiva. Um sempre deseja ser devorado e o outro devorar.

Minha mulher tem que olhar e estremecer e tem que desejar a minha “violência” além do meu amor.

Mulher medrosa, esquecida, com família manipuladora, e que chega perto e tem MEDO, não me resolve. Vá, dar o que você é para essa gente previsível, coloca calça bege, fica na fila uma hora para comprar danone, reclama do preço do gás, mas some. Eu não PRECISO DESTE tédio.

Se você não pode ser saboreada vai ter namoro de cinema, de visitinha da família, e vai sofrer porque sua infância foi difícil, e mente para SI mesma acreditando que você está segura numa relação morna.

Eu, como todas as pessoas, tenho problemas. Eu choro, eu cago, mas eu SOU BEM mais que isso. E, para uma Lésbica de 40 anos, SER mais numa sociedade de mulheres que amam encher a cara quando estão com problemas, é ser isolada, porque estou sendo DIFERENTE num mundo previsível. Eu sou uma mulher lisérgica por natureza e o meu ópio é o passar dos dias, e poderia ser a pele macia DELA também, mas isso é impossível.

Aos 40 anos as Lésbicas não estão recomeçando e sim continuando os mesmos erros e morrendo de medo de ficarem sozinhas. Eu estou sozinha há 40 anos, se continuar vai ser triste mas não vou morrer NÃO, e também não vou ficar gorda, alcoólatra e chata. Chega de coisas previsíveis, GENTE! E a delicadeza, o sexo, o ópio mental?

Eu cheguei a um ponto, na minha vida, de ter algumas mulheres interessadas por mim e olhar TODAS com um imenso tédio, por saber que nenhuma DELAS vai dar o que necessito numa relação. Não procuro no outro que ele me mova, mas procuro que no mínimo ele se *encaixe*.

Mas ando frustrada mesmo porque não encontro nem uma mulher que *trepe* melhor que EU. Encontro mulheres cansadas, mulheres sem libido, mulheres desajeitadas que perdem o horário de acordar, de ligar, de TUDO.

Gente previsível…, vão nos lugares, bebem e ficam com dor de cabeça, é muito decadente. A boemia antigamente pelo menos produzia cultura e morria de tuberculose. Hoje em dia essas mulheres bebem, ficam com dor de cabeça e dormem o dia todo no outro dia. Coisa mais ultrapassada. A vida rolando e a pessoa ali morta e podre de álcool.

Eu sou um alienígena que nem álcool consumo. Pois é chato demais essa gente que bebe, perde a classe e adia a solução dos problemas.

Texto © Senhorita Dragão Vermelho
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A partir de hoje passamos a ter a colaboração de nossa especialista em sexo [exclusiva e contratada], a Senhorita Dragão Vermelho, com seus textos escritos especialmente para o Uva Na Vulva. Reproduções são permitidas desde que sejam atribuídos os devidos créditos ao site e à autora.

Senhorita Dragão Vermelho é paulistana, 40 anos, lésbica, transgressora e sexpert.

Postado por BF.

22.07.2008

[15:31:46]

NEM IGUAL, NEM NORMAL, SER DIFERENTE É NATURAL

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DRAG KINGS: BRINCANDO COM OS GÊNEROS

O Drag King, de uma certa forma, não expõe simplesmente os desejos ditos “anormais” ou “gêneros anormais”, ele brinca com o que já é perverso no normal.¹

Este texto é produto de minha pesquisa de pós-doutorado, realizada na New York University (NYU) de setembro de 2001 a julho de 2002. O alvo dessa pesquisa foi a comunidade transgender, termo guarda-chuva usado para designar as pessoas que desafiam os papéis rígidos desempenhados pelos gêneros. Dentre a diversidade que compõe essa comunidade, gostaria de privilegiar aqui a atuação dos Drag Kings, para esta mesa sobre “Representações de Gênero: significados singulares e plurais”.

Escrito por Judith Halberstam e com fotos de Del LaGrace Volcano, The Drag King Book aponta no primeiro capítulo a dificuldade de conceituar o termo. Entre as inúmeras tentativas, gostaria de citar a seguinte: “um performer que transforma a masculinidade em seu show”.²  Este performer pode ser uma mulher heterossexual que assume uma persona masculina apenas para fazer o show, ou uma butch que encontra uma forma de expressar sua masculinidade. Cumpre ressaltar que o Drag King, assim como a Drag Queen, pode fazer uso apenas do palco para existir como também, ao inverso, fazer uso do drag para existir.

No dia 27 de fevereiro de 2002, participei do evento “Performing Gender: A conversation with Judith Halberstam and Drag King Dréd Gerestandt”, organizado pelo Barnard Center for Research on Women. A professora de Literatura da Universidade da Califórnia assinalou em sua palestra que as transformações de gênero na história coincidem com o surgimento de male impersonators, e citou, como exemplo, a época vitoriana e os anos 20. Do ponto de vista de Halberstam, os estudos queer se desenvolveram em estudos culturais. Levando em consideração seu campo de pesquisa, ela considera o Drag King um bom exemplo de participante sub-cultural. Cabe ao teórico, ao seu ver, coletar material, produzir interpretação além do mainstream, e trabalhar como historiador para registrar a atuação do participante da sub-cultura.

Judith Halberstam mencionou que o tema de sua palestra era “Perigos e prazeres da colaboração”, devido ao seu interesse na relação entre a academia e a sub-cultura. Naquele momento, ela estava colaborando em um filme sobre Drag Kings que, no seu ponto de vista, não poderia ser classificado de documentário, uma vez que o cenário era falso. Halberstam localiza os Drag Kings nos anos 90 e os associa às pessoas brancas e à comunidade lésbica. A professora de literatura enfatizou que não relaciona os Drag Kings aos FTM (Female-to-male transsexuals), mesmo porque os próprios transexuais avaliam os Drag Kings como uma humilhação para a sua comunidade por tratarem, de forma lúdica, a questão do gênero. De acordo com Halberstam, os Drag Kings capturam tanto a potencialidade como a probabilidade da juventude. Observando atentamente as fotos tiradas por Del LaGrace Volcano no livro acima mencionado, pude constatar que os Drag Kings são interpretados por mulheres jovens.

Entretanto, este evento estaria incompleto sem a presença de um Drag King para dialogar com a professora da Universidade da Califórnia. Considerada como uma das performers mais inspiradas de Nova Iorque, Dréd Gerestant é cantora, atriz, modelo e “ilusionista de gênero”. A famosa impersonator afro-americana abriu sua fala com a afirmação: “É natural ser diferente”, seguida de um discurso em que defendeu a liberdade de gênero assim como questionou os conceitos de masculinidade e feminilidade.

O que chamou a minha atenção na performance de Dréd foi sua capacidade de materializar esse questionamento, ao desempenhar tanto papéis masculinos como femininos. Utilizando-se de perucas, roupas e acessórios apropriados, ela se transforma em frente à platéia – o que também contribui, a meu ver, para esse questionamento. Mas isso não é tudo. Dréd admitiu em público que algumas pessoas pensam que ela é MTF (Male-to-female transsexual). De fato, ela tem uma aparência andrógina, com seu corpo negro esbelto e rosto assexuado. Por conseguinte, ela é extremamente convincente quando representa tanto como homem quanto como mulher - ela tem physique du rôle. Desempenhando o papel de mulher, ela coloca uma peruca vermelha, usando apenas um soutien vermelho de couro e short preto. Vestida desta forma, ela tira uma maçã de seu short e morde a fruta. “Toda vez que eu mordo a maçã estou reivindicando meu lado feminino”, ela afirmou orgulhosamente. Gostaria, no entanto, de ressaltar uma diferença. Quando ela representa ao som da música “A Natural Woman (You Make me Feel Like)”, interpretada por Aretha Franklin, ela atribui um significado diferente à essa música, já que “a mulher natural” é construída, passo a passo, na frente do público. Conseqüentemente, ela desconstrói, de forma lúdica, o conceito de “mulher natural”. No que diz respeito ao seu lado masculino, Dréd declarou em uma entrevista para o Drag King Book: “Quando estou em drag parece natural, porque eu tenho muita energia masculina”.³  Não surpreende, portanto, ela representar tão bem personagens como Marvin Gaye e Shaft. Ao observar seu show, tornou-se claro para mim que ela constrói e desconstrói ambos os gêneros com muita facilidade e habilidade. Sob meu ponto de vista, Dréd Gerestandt consegue corporificar o conceito de “fluidez dos gêneros”.

No dia 21 de junho, tive a oportunidade de assistir ao Sir Real’s “Reality Show” no WOW Café Theater localizado no East Village. Os Drag Kings deste espaço já consagrado se reúnem com o objetivo de eleger o tema do mês e desenvolver seus shows em torno do tema escolhido. O tema do mês de junho foi “High School Romance”. A melhor performance do show, na minha opinião, foi a de Brandon Iron. Este Drag King, personificado por uma aluna da NYU, vestia um chapéu de palha, botas e jeans. Ele tinha uma barba feita com maquiagem e uma mancha de batom em seu rosto. Sem sombra de dúvida, um dos mitos norte-americanos mais machistas é o do cowboy do oeste. Ao som de uma canção do oeste, Brandon Iron fazia trocadilhos sexuais com as expressões “save a penny” e “ride a cowboy”. Considero esta performance uma forma de desconstruir este mito, uma vez que Brandon Iron claramente “diz” para a público que masculinidade não é um privilégio dos homens. A propósito, este é o ponto principal de outro livro da já citada Judith Halberstam. Em Female Masculinity4, a autora argumenta que a masculinidade existe sem os homens, ao convidar o leitor a separar o conceito de masculinidade do corpo masculino. É surpreendente observar a multiplicidade de expressões de gênero que variam de identidades pré-lésbicas às performances de Drag Kings, incluindo a discussão sobre lésbicas stone-butch e male-to-female transgenders.

Gostaria também de acentuar no Reality Show a performance do apresentador. Sir Real deu início ao show vestido como uma femme, usando saia e blusa e uma peruca loura. Ao olhar para este Drag King, eu tive um impacto, pois somente então pude entender o que já havia lido em alguns livros. Quando uma mulher masculina se veste como femme, ao invés de parecer feminina, ela parece um homem gay em drag. Pois sua forte expressão de gênero prevalece, já que não pode ser suprimida por uma saia, cabelo longo e uso de batom. Por conseguinte, eu cheguei à conclusão de que não faz sentido nenhum o que a sociedade de consumo vem pregando. Nós, mulheres heterossexuais, não precisamos comprar roupas caras, maquiagem e acessórios com o objetivo de nos tornarmos femininas para, então, sermos o objeto do desejo masculino. Aprendi que a feminilidade não está localizada no exterior; ela é, ou não, a expressão de gênero de uma mulher. A feminilidade não pode ser adquirida através do uso de roupas ou de adereços ditos “femininos”. Ao longo do Reality Show, enquanto apresentava os Drag Kings e outros artistas performáticos, Sir Real ia tirando gradualmente seus itens femininos até ficar reduzido à roupa intima. Naquele momento, retirou o soutien e pediu a uma pessoa da platéia para ajudá-lo a enrolar seu busto em papel celofane e começou, também gradualmente entre as apresentações, a se vestir como um Drag King, com calça jeans, camisa e sapatos masculinos. A platéia pôde claramente visualizar o que é um Drag King e como ele se veste para a apresentação. Creio que ver este show me ensinou mais sobre Drag Kings do que provavelmente ler sobre eles.

Em “Curtain Call”, o último capítulo de The Drag King Book, Judith Halberstam estabelece as diferenças entre as performances de Drag Kings, ao discutir a contribuição dos impersonators para este aspecto da sub-cultura:

Como tentei demonstrar neste livro, não existem  relações essenciais entre ser uma pessoa masculina e representar como um Drag King, mas existe alguma relação entre representar a masculinidade e diminuir os elos naturais entre masculinidade e homens. Quando femmes ou mulheres heterossexuais femininas representam como Drag Kings, elas experimentam o privilégio masculino negado no dia a dia, e produzem uma mistura camp de feminilidade e masculinidade. Quando butches representam como Drag Kings, elas criam uma nova masculinidade, em torno de suas masculinidades cuidadosamente cultivadas e tendem a criar efeitos de realidade e efeito masculino convincente… 5

(…)

Finalizo meu texto tecendo o seguinte comentário sobre a epígrafe. Não existem desejos “anormais” ou gêneros “anormais”. A perversidade existente reside no conceito de normalidade que restringe o gênero a apenas duas categorias.

DRAG KINGS: BRINCANDO COM OS GÊNEROS - BERUTTI, Eliane Borges - UERJ

Notas:

¹ HALBERSTAM, Judith e VOLCANO, Del LaGrace. The Drag King Book.  London: Serpent’s Tail, 1999. p. 152  Minha tradução assim como todas as demais.
² Ibid, p. 36
³ Ibid, p.120
4 HALBERSTAM, Judith. Female Masculinity. Durham: Duke University Press, 1998.
5 HALBERSTAM e VOLCANO, Op. cit., p.150

Fonte original: http://www.rj.anpuh.org/Anais/2002/Comunicacoes/Berutti%20Eliane%20B.doc

Obs.: os destaques em negrito foram adicionados durante a edição do texto para a publicação neste site.

Postado por BF.

20.07.2008

[19:09:55]

CONSTRUIR, DESCONSTRUIR, CRIAR, RECONSTRUIR

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Desconstruir o velho para criar o novo

Por LD.

No primeiro ano de meu curso de arquitetura tive um professor que disse, talvez, as duas únicas coisas mais fundamentais de se saber pra quem deseja ser um arquiteto.

A primeira foi na área, digamos, técnica do modus operandi da arquitetura e consistia em um esquema da seqüência básica de um projeto. Algo extremamente simples, mas que não está escrito em nenhum livro e não consta da relação dos itens a serem ensinados, nem nas matérias específicas de projeto.

A segunda foi mais profunda e subjetiva, pelo menos pra mim, e “serve” pra tudo na vida, não só pra arquitetura. É o seguinte: todos nós, desde de o primeiro minuto de consciência, vamos criando um repertório, um arquivo, um gabarito, de formas, cores, espaços, sensações, etc etc e mais infinitos etecéteras. Assim, quando temos necessidade, vamos lá e pegamos no nosso acervo a informação que necessitamos. Até aí, nada de novo, certo? O lance é que fazemos isso também com nossos comportamentos, emoções, com nosso julgamento/avaliação, com as escolhas que fazemos durante a vida e, principalmente, com os modelos que adotamos e que achamos que serão a receita para sermos felizes ou simplesmente o que absorvemos como sendo o certo (o tal do “é assim que tem de ser”).

Então, se no seu repertório inconsciente, o gabarito para um relacionamento é o modelo heteronormativo (o que acontece com 11 entre 10 seres humanos que vivem em sociedade) esse vai ser o modelo que você vai tentar reproduzir… mesmo que você seja… homossexual…! Eeeeeita!

É, somos como as abelhinhas que fazem suas casinhas com aquelas coisinhas hexagonais, não por que acham bonitinho, mas por que enxergam o mundo dessa forma.

Caaaalma irmãos e irmãs, não vos desespereis… Não somos abelhinhas.

Meu professor (e eu também) guardou a melhor parte pro final: a grande sacada é que você pode e deve DESCONSTRUIIIIIIIR…!

O grande pulo do gato para um arquiteto, e todos somos os arquitetos de nossas vidas, é desconstruir o que temos como padrão e CRIAR!!

Novas estruturas, novos espaços que propiciem novas bases de relação, novas formas de ser e se relacionar.

Mesmo por que, como escreveu uma amiga, é “uma pena nós, homossexuais, não aproveitarmos essa nossa condição transgressora pra estabelecermos também novos conceitos sobre as relações, de forma a torná-las mais saudáveis e arejadas.”
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© Texto By LD, do blog Lésbica Disléxica

Postado por BF.

15.07.2008

[18:17:35]

UNV REVIVAL: CLARA E SUA FOME

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Queria aqui, contar a história com Clara, que literalmente me transtornou, e que foi capaz de amar meu corpo como ele nunca foi amado. Clara e sua Fome.

Primeiro dia

Só então, sentada ao lado de Clara, olhei e não acreditei: “mas ela tá a fim de mim? Não pode ser”.

Sem nenhuma pista anterior, Clara acariciou meus cabelos com uma delicadeza tão boa, minha cabeça baixa, pensei: “o que estou fazendo que não tomo nenhuma atitude?”

- Estou arrepiada - falei baixinho e séria.
- De frio? - pergunta Clara.
- Não - minha resposta seca.

Clara inclina-se com decisão, meu corpo responde sem que tenha tempo de raciocinar e procura sua boca com uma avidez impensável alguns minutos antes. Como pode o corpo responder com tanta precisão o que a cabeça fica incapaz de decidir?

Segundo dia

Seguiu-se o rumo do dia anterior. Um cafuné que precede os beijos irresistíveis e devastadores de Clara.

Pedi sobre mim, Clara veio com incerteza, mexeu-se suave e incerta e declarou:

- Preciso ir.
E foi.

Terceiro dia

Nesse dia descobri o rosto de Clara com desejo, um rosto onde os olhos escurecem, quase fecham, tornam-se ferozes, vorazes. Clara com tesão.

Quarto e quinto dias

Clara veio de novo com aquele sorriso que diz sim, só não se sabe pra que. Beija-me com a suavidade dos beijos intensos. Fui. Retornei. Me deixei. Sem querer. Sem saber. Sem querer saber.

A primeira sexta de nossas vidas

Planejei tudinho: flores, champanhe e morangos, música? Seal, muito sexy. Arrumei tudo com tanta delícia, com tanto carinho, com tanta vontade: a casa, as rosas, o champanhe, o perfume, as velas, o incenso e a pizza.

Clara chegou em uma estrela cadente vista na surpresa de uma mesa de bar.
Clara chegou na surpresa de um carinho absolutamente inesperado.
Clara chegou no preparo de uma fantasia.
Clara pegou a fantasia com as mãos e dirigiu a orquestra que preparei.
Com perfeição de artista que é.
Com a percepção aguda de que a fantasia era a desculpa que faltava.
Clara vê meu corpo como uma obra de arte, Clara vê.
Clara vê e percebe minhas curvas com delícia, Clara sente.
Clara se entrega com voracidade, Clara intensa.
Clara é.

E você ainda pergunta se me entreguei, assim, de vez?

© Texto by Joana Da Mata

Postado por BF.