BUTCHES E O PRECONCEITO DENTRO DO PRECONCEITO

“Butches não são mulheres que desejariam ser homens. Butches são mulheres que se sentem mais à vontade com comportamentos tidos como masculinos, mas que na verdade podem ser praticados tanto por homens quanto por mulheres. Butches, verdade seja dita, sequer são sempre lésbicas, visto que muitas mulheres heteros preferem esse mesmo jeito simples e direto de se expressar e vestir. ” Susie Bright

O trecho acima já é conhecido das leitoras e leitores do UNV e trata de um assunto freqüente em nosso blog: Butches . Sempre quisemos valorizar essa figura do mundo lésbico que sempre sofreu preconceito até mesmo dentro do seu próprio meio.

E é esse velho-e infelizmente sempre atual-assunto do preconceito em relação as butches que me leva a reeditar também o texto abaixo. Espero que a informação possa de algum modo contribuir para diminuir, nem que seja um pouquinho, reações e comentários como esses:

“Eu gosto de butch, mas nada de caminhoneira, por favor!”
“Para mim, não é mais uma mulher, ela saiu desta classificação. Ela não faz parte de nós.”
“Se eu me volto para as mulheres, não é para encontrar um sósia de homem.”
“Butches são cafonas, vulgares, eu não gosto.”


Por que há ainda uma rejeição à figura da butch? Por que mesmo as lésbicas freqüentemente manifestam preconceito em relação à masculinidade feminina?

Não é difícil concordar que a sociedade encara de forma positiva um certo tipo de feminilidade masculina – a valorização do homem sensível, do homem grávido, do lado feminino dos homens “modernos”. Por que há, então, uma rejeição à masculinidade das mulheres butch?

Em geral, quando se ouve ou se lê afirmações preconceituosas ou de rejeição às butches, elas vêm acompanhadas de definições de butch como mulheres “caminhoneiras”, que incorporam características, atitudes e comportamentos masculinos condenados pelas mulheres: aparência rude, cafonice, grosseria, vulgaridade, machismo etc.

Butches são mulheres que possuem uma certa masculinidade, que adotam comportamentos tidos como masculinos pela sociedade, mas que não são exclusivos dos homens. Sendo assim, vale a pena questionar se “comportamentos tidos como masculinos” são necessariamente comportamentos grosseiros, rudes, vulgares, machistas. Por que a figura da butch é sempre vinculada a esse tipo de masculinidade? Essa é a única masculinidade que existe?

Na verdade, a masculinidade que é condenada nas butches é aquela masculinidade relacionada aos homens da classe operária, sem o refinamento e a elegância da masculinidade da elite. Em geral, as mulheres masculinas, as butches, que adotam características, comportamentos e vestem-se de forma semelhante aos homens elegantes, refinados, que trazem um ar de androginia, que se parecem com rapazes cheios de “estilo” não são rejeitadas e são até objeto de desejo. No entanto, o que define uma butch não é o seu estilo de vestir, e uma butch elegante, refinada, pode ser até mais “masculina” do que outra menos arrumada.

A masculinidade feminina pode se apresentar das mais variadas formas, porque são inúmeros os modelos masculinos que existem na sociedade. Uma butch não precisa necessariamente reproduzir um modelo masculino machista, grosseiro, cafona, que são inclusive características que podem ser encontradas em mulheres bastante “femininas”.

Cabe aqui uma homenagem às butches, que, por serem mais visíveis, sofrem muito mais o preconceito “heterossexista” da sociedade e, inclusive, ao longo da história, têm sido muito mais freqüentemente vítimas da violência homofóbica. Além disso, nos momentos de maior repressão e violência contra às mulheres lésbicas, foram as butches (ou as “caminhoneiras”) que sempre expuseram a identidade lésbica e contribuíram para o desenvolvimento de uma cultura da homossexualidade feminina, pelo simples fato de terem visibilidade.

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