INFINITO ENQUANTO DURE

Foi no dia anterior ao meu aniversário do ano passado. Combinei com uns amigos de nos encontrarmos num famoso bar GLBT, freqüentado por adolescentes, na região dos Jardins, em São Paulo.

Chegamos, bebemos, conversamos...

Quase hora de ir embora e eu não tinha ficado com ninguém. Meu amigo me pede para acompanhá-lo, a ele e à prima, até uma esquina. Chegando lá, a prima dele beija uma menina que mais parecia um garoto – coisa que até então eu achava ridículo, pensava que se fosse para ficar com sósia de homem eu "continuava" hétero. Imagina se eu ia dar atenção para uma garota de calça larga, cueca aparecendo, camiseta baby-look, jaqueta jeans e o cabelo curto todo espetado para cima!

Mas, naquela hora, eu não sei o que me deu. Quando eu a vi beijando a prima do meu amigo, minha reação foi quase instintiva: "F., seu chato! Você empurrou para a sua prima a menina que eu queria beijar!". Até hoje eu não sei o que me levou a dizer isso! "Beijem as três, então!", ele sugeriu. "Não, eu não curto essas coisas!", disse a tal menina. "Então beija ela!". E a garota veio, me pegando pela cintura – e pegou de jeito! Nosso beijo encaixou instantaneamente, ficamos cinco minutos coladas pelos lábios, a espertinha foi logo descendo a mão – que meu amigo fez questão de colocar na minha bunda!

Meu amigo foi embora e eu fiquei por lá mesmo, o resto da noite com ela. Conversamos, conheci seu melhor amigo, ficamos juntas abraçadas e ela aproveitando a visão que meu decote proporcionava na posição em que estávamos sentadas... Aquela coisa meio cafajeste, sabe?

Chegou a hora de ir embora e fui pensando nela o caminho inteiro – tanto que até perdi o ponto de ônibus onde eu iria descer!

No dia seguinte foi meu aniversário. Nos encontramos à tarde e eu me sentia incrivelmente bem ao lado dela. Nunca tive tanto prazer em ser eu mesma! Chamei-a para a reunião "família e amigos íntimos" que haveria na minha casa e contei as horas para vê-la. Quase voei da minha sacada para abrir o portão ao vê-la chegando! Meus amigos já a conheceram no mesmo dia. Apresentei-a aos meus parentes e tenho certeza que minha avó não foi a única a mencionar (ou pensar) que achou a minha amiga um tanto "estranha". No segundo dia eu já estava completamente apaixonada por ela!

Então, veio a nossa primeira prova de fogo. Ao irem embora todos os convidados, quis ficar sozinha com ela no salão de festas do meu prédio – só não me ocorreu que seria óbvio que meu pai iria levar de volta as cadeiras que tinha pego emprestadas para colocar no meu apartamento. Deu de cara com nós duas! A confusão nesse dia foi dos infernos, minha mãe simplesmente disse que ela não era mais bem-vinda em nossa casa e eu quase pulei no pescoço dela quando ela disse isso. Então ela foi embora e nós subimos.

Minha mãe exaltada, dizendo que já estava adivinhando - o que era fato, pois eu já estava começando a dar dicas, ensaiando para sair do armário. Meu pai, chocado, quase não falou. Aí minha mãe disse que eu não iria sair de casa no dia seguinte. Pois bem, acordei seis horas da manhã e saí antes que escondessem minhas chaves.

Fiquei perambulando pelo centro da minha cidade até nove horas da manhã e estava tão desesperada que, mesmo não tendo uma religião, fui pedir um conselho ao padre da Igreja Matriz de Guarulhos.

Logo depois, liguei para ela e pedi para ir até sua casa – queria passar aquele dia longe da minha casa, pensando muito bem em como eu iria enfrentar aquela situação. E lá fui eu.

Chegando lá, quase não a reconheci. Ela estava de shortinho e com uma blusinha até bem feminina, de chinelos, e com o cabelo curto "desmontado". Assumida, me apresentou à mãe e fomos para o quarto dela, onde expliquei toda a situação na minha casa, pedi desculpas pelo acontecido. E a partir daí, eu só me lembro de quando começamos a nos beijar... Sem parar.

Os beijos foram ficando mais quentes... as mãos começaram a passear e nós duas sabíamos bem o que queríamos... Ela sabia que era a minha primeira vez com uma mulher e me tratou de forma tão especial quanto o momento pedia. Lembro de ela ter me deitado devagarinho na cama, beijando minha boca e meu pescoço. De ter tirado minha blusa e beijado levemente meus seios e minha barriga antes de tirar meu sutiã e derramar-se em meus seios novamente, dessa vez com desejo e uma certa fúria animalesca que me aguçou os instintos e me fez desejá-la mais do que nunca! Lembro-me de ter tirado também sua blusa e ter-me demorado bastante em seus seios, que eram a minha segunda maior curiosidade em fazer amor com uma mulher. Como era bom aquele gosto, aquela pele, aquele cheiro, o jeito de me tocar... Como era bom sentir o corpo de uma mulher nas minhas mãos, sentir pela primeira vez em toda a minha vida o que era ficar molhada de verdade, encharcada de tesão!

Ela tirou minha calça e me tocou... primeiro suavemente, massageando meu clitóris, e pouco depois senti seu dedo me penetrando – nunca senti tanto prazer numa penetração! Ela sabia como fazer, soube se guiar pelos meus gemidos, me beijava intensamente e então, não mais que de repente, eu senti o gozo se aproximando e gozei em seus dedos – era a primeira vez que eu gozava numa relação sexual! Aquilo me deixou ainda mais louca, então foi a minha vez. Eu comecei a tocá-la, me deliciei em seus seios e toquei pela primeira vez o sexo de uma mulher, sentindo-a molhada. Não a penetrei, mas a senti gozando também em meus dedos enquanto eu lhe sussurrava coisas ao ouvido e gemia de prazer junto com ela.

Fizemos amor mais umas duas ou três vezes naquele dia, então eu tive certeza de meus sentimentos, de minha verdadeira orientação sexual, e assumiria isso custasse o que custasse. Lembro-me de ela ter ajoelhado antes de eu ir embora, me pedindo em namoro e dizendo "A partir de hoje, eu te declaro minha mulher".

Voltei para casa, enfrentei meus pais numa conversa séria e franca: contei-lhes tudo o que vinha se passando na minha vida, desde a época em que namorava meninos, meu último namoro com um deles, até aquele momento. Fui firme na minha decisão e tenho certeza que essa firmeza ajudou-os a perceber que não era mais uma criança que estava ali pedindo permissão para namorar.

Minha namorada demorou cinco meses para conseguir freqüentar normalmente a minha casa. Apareceu na porta do meu colégio várias vezes e na primeira vez foi aquele alvoroçozinho, um tal de "Você viu?" geral, do qual não havia nem rastro no dia seguinte.

Aos sete meses de namoro, a vida dela virou de pernas para o ar e ela, para me proteger, terminou o namoro. Voltamos dois meses depois, ela totalmente transformada: mais carinhosa, mais dedicada e sem o medo que antes tinha de se entregar.

Vivemos juntas os melhores e os piores momentos de nossas vidas, fomos companheiras fiéis e inseparáveis uma da outra; amantes incansáveis da vida. Fui eu que a ajudei a comprar as coisas da casa onde ela hoje mora sozinha, fui eu que encontrei a gatinha preta que hoje a faz companhia.

Mas hoje, quase um ano e quatro meses depois daquele dia no bar, eu não entro mais naquela casa como sua mulher. Entro como uma pessoa especial e amiga. Não durmo mais naquela cama onde meu cheiro vai ficar por muito tempo, não a amo mais ali. E contento-me em ser amiga dela, vendo-a começar a se interessar por outra garota enquanto fico dividida por duas grandes vontades: fazê-la perceber que eu retomei as rédeas da minha vida e voltei a ser a mulher perfeita para ela e então reconquistá-la; ou rezar para Deus colocar o mais depressa possível no meu caminho alguém que me encante e a transforme numa gostosa lembrança.

De uma coisa só eu tenho certeza: EU A AMO, e por mais doloroso que seja, não me importo de continuar amando-a por mais sete anos como ficou uma colega minha por outra mulher. Seguindo minha vida porque sou obrigada a seguir, mas com aquele cantinho especial do coração sempre ocupado e marcado para sempre.


© Lady Boo


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