
VERA (Parte I)
Foi num início de outubro, há alguns anos atrás, poucos meses após a minha separação do pai do meu filho, que eu tive a minha primeira experiência com uma outra mulher. Viajara até São Paulo para participar de um congresso de uma semana dentro da minha área profissional, e o re-encontro com o Brasil me deixara naquela ocasião, lembro-me bem, num misto de excitação, embaraço e melancolia. Eu estava passando por uma leve depressão e me sentia muito só naqueles dias. Cheguei pela manhã no hotel que me fora reservado e, após o almoço, fui até o Centro de Convenções onde se realizaria o congresso.
No local havia já uma pequena multidão de pessoas vindas de vários países e de todo o Brasil. Apresentei-me a colegas europeus que já conhecia de nome, e a outros, meus compatriotas, que ainda não conhecia. Um colega de São Paulo apresentou-me a um dos conferencistas e também a uma colega bióloga de Recife, uma mulher muito vistosa e sempre sorridente. Chamava-se Vera Regina e era professora universitária, uma bela figura de mulher nordestina. Ela era razoavelmente esbelta, de cabelos negros e longos, volumosos, e um magnético par de olhos verdes, sempre brilhantes e vivos. Tinha um porte muito elegante no duas peças de bom-gôsto que usava. Parecia uma pessoa muito segura de si e desembaraçada, além do jeito afetuoso extrovertido, típico dos nordestinos, muito diferente do meu, já « europeizado », discreto, introvertido e reflexivo, ao qual se associa ainda uma tímidez quase congênita. Nós nos entendemos bem desde o início. E, já que estávamos no mesmo hotel e participávamos do mesmo grupo de trabalho, sempre íamos conversar e relaxar um pouco no barzinho do hotel, no início da noite. O programa diário era sempre o mesmo : pela manhã, assistíamos às conferências matinais e depois almoçávamos com outros colegas. À tarde, as oficinas e outras palestras recomeçavam.
Eu estava sempre próxima a Vera porém, no terceiro dia à tarde, ela desapareceu sem dar notícias. Um colega então me informou que ela tivera que sair com um outro grupo de trabalho por questões técnicas. O meu grupo era constituído também de europeus e norte-americanos. A alternância de línguas, por momentos, deixava-me muito cansada e com vontade de voltar ao hotel e dormir. Numa das saídas noturnas que fazìamos diariamente, eu fui com um grupo a um restaurante italiano, para jantar. Ambiente magnífico, muito bem decorado e a cozinha era excelente. Lá prás dez e meia, o grupo estava muito animado e, depois de algumas caipirinhas (os europeus adoram essa nossa bebida) começou então o assédio de um deles a mim. Com as rodadas de caipirinhas, a cantada foi se intensificando e chegou a tal ponto, que eu temi um pequeno escândalo. Era um holandês, flagrantemente embriagado, e queria me levar para a cama, custasse o que custasse. O problema é que ele me declarava suas intenções de uma maneira que não passava nada desapercebida aos demais da mesa. O clima tornara-se constrangedor. Após a sobremesa, eu peguei discretamente minha bolsa e saí à rua. Chamei um táxi e voltei ao hotel.
No dia seguinte, o penúltimo dia do congresso, ainda cedo, encontrei Vera no hotel. Ela me abraçou e me beijou, bem-humorada como sempre, e me perguntou se eu não queria acompanhá-la a um lugar onde ela costumava fazer compras de coisas que não conseguia achar em Recife. A idéia me pareceu oportuna pois, depois daquelas cenas desagradáveis da véspera, eu não queria dar de logo de cara com as pessoas do meu grupo da tarde. E nem ter que aceitar as prováveis desculpas daquele colega batavo, possivelmente ainda de ressaca. Falei-lhe então que topava e o rosto dela iluminou-se. A manhã transcorreu-se um pouco tediosa, com exposições demoradas de coisas que eu não apenas já conhecia, como discordava da maneira com que estavam sendo apresentadas. No entanto, para compensar, terminei conhecendo dois representantes de laboratórios europeus, contactos importantes, e que certamente agradaria muito ao meu chefe quando eu lhe contasse. Por volta do meio-dia, como combinado, encontrei Vera no hall do Centro de Convenções. Dali mesmo tomamos um táxi e fomos até o Itaim.
O restaurante era um lugarzinho realmente tranqüilo, aconchegante e, curiosamente, sem muito movimento àquela hora.. Vera contou-me que sempre que vinha a São Paulo, ela almoçava lá pois adorava a comida e o ambiente. Contou-me também que fizera pós-graduação na USP, em Botucatu, e que morara algum tempo na capital paulista, antes de retornar a Recife. Foi ali, naquele lugar tranqüilo, provando as delícias de um dourado grelhado, acompanhado de vinho branco geladinho, que eu fui, aos poucos me sentindo ainda mais à vontade com aquela pernambucana inteligente e doce, e que sempre me escutava olhando-me bem nos olhos, um hábito, por sinal, pouco comum a nós, brasileiros. Diante de sua maneira de trocar confidências comigo de uma forma totalmente espontânea, descompromissada, eu acabei finalmente me abrindo mais e falei de mim e do delicado momento que eu vivia. Contei-lhe que acabara de me separar e que o meu filho andava muito problemático naqueles tempos com a falta do pai. Ela me escutava com atenção, sem me interromper, os belos olhos verdes bem abertos e que pareciam emitir uma espécie de luz interior que me cativava. Aos poucos, eu fui me sentindo mais confiante em relação a ela e diminuindo as barreiras que ainda se eriçavam dentro de mim em relação a desconhecidos. Vera falava dos casos de separações que conhecera, dos que se passaram bem e de outros que criaram seqüelas no comportamento de alguns filhos daqueles casais. Todavia, ela pontuava cada caso com observações inteligentes e muito apropriadas. Comecei a perceber que se tratava de uma mulher muito lúcida e de grande maturidade.
Conversamos um bom momento até que, olhando o relógio, ela me propôs de sairmos para fazer compras. Pagamos a conta, saímos e começamos a olhar as vitrines de uma rua que ficava próxima ao restaurante e que era especializada em lojas de confecções. Depois gastamos nossos passos em lojas de sapatos e eu comentei que só mesmo uma megalópole como São Paulo poderia ter tantas opções do gênero. Jamais teria a mesma escolha no país em que eu morava, cujo comércio era reduzido e, infelizmente, de um gosto bastante diferente do meu. Vera comprou dois pares de sandálias e um sapato um pouco mais social. Eu nada comprei pois não podia esquecer que dentro de alguns dias estaria de volta ao outono europeu. E também que, durante os próximos seis meses, nada portaria além de meias de lã, botas e sapatos fechados de couro tratado para resistir ao sal das calçadas. Mas, para não ficar de mãos totalmente vazias, eu comprei então uma sandalinha vermelha de salto, para usá-la no começo do meu verão, ou seja,.dali a uns nove meses. Depois de tanto andar, entrando e saindo de lojas e de ruas, a gente se deu conta que já eram quase cinco horas. No céu, o tempo também mudara sem que notássemos e começou rapidamente a esfriar.
Como boa nordestina, Vera já estava morrendo de frio e me sugeriu de voltarmos ao hotel para bebermos alguma coisa para nos aquecer. «Excelente idéia » respondi « eu também estou com os meus pés em petição de miséria. » Ela achou graça da minha expressão e disse que fazia anos que não a ouvia. Tomamos um táxi e meia hora depois entrávamos no hall principal do hotel, que já estava abarrotado de gente, em sua maior parte congressistas. Tentamos achar uma mesa no bar ou no restaurante, mas todas estavam lotadas, tudo parecia uma verdadeira Babel. Vera ficou desapontada. Ela queria beber alguma coisa mas não queria sair mais à rua, temendo um resfriado. Foi aí que eu lhe sugeri de subirmos a um dos nossos quartos e pedirmos algo para beber na recepção. Pelo menos assim, estaríamos mais sossegadas e longe daquela multidão pavorosa. Além do mais as minhas costas e os meus pés doíam horrivelmente, eu precisava me sentar urgentemente e tirar os meus sapatos. Ela achou ótima a idéia e optamos então por ir ao meu apartamento, que ficava no sexto andar.
Assim que entramos, eu fui tirando logo os sapatos e Vera aproveitou para fazer uma ligação telefônica no celular dela. Liguei à recepção e pedi uma garrafa de vinho tinto. O recepcionista, muito gentil, me sugeriu também alguns pratinhos de tira-gostos e eu aceitei. Vera tirou os sapatos dela e deu uma volta pelo quarto, comentando detalhes nos móveis e nas paredes. Pouco tempo depois, tocaram a campainha e um rapaz entrou com uma bandeja contendo copos, pratinhos de tira.gostos e uma garrafa de vinho tinto dentro de um balde com gelo. Com muito cuidado, depositou numa mesinha, próxima à cama e, após ter aberto e servido o vinho, o ele saiu e nós nos sentamos de frente uma para a outra. Fizemos então um brinde ao nosso encontro e continuamos a conversar. Os temas da conversa giraram em torno de nossas atividades profissionais, das pessoas do nosso dia-a-dia profissional, os prós e os contras de cada um, colegas e chefes confundidos. Falei-lhe também da vida na Europa, das nossas diferenças de comportamento e de mentalidade, o que a deixava muito curiosa. Ela encheu-me de perguntas a esse respeito.
Ao lhe servir um pouco mais de vinho, senti uma forte dor no braço e fiz uma careta. « Que foi ? » indagou Vera, o ar atento. Falei-lhe que estava com uma dorzinha no ombro, talvez devido à tensão nervosa, e também pelo fato de ter ficado muito tempo de pé. Ela me propôs uma massagem. "Ah, não, Vera, você também é massagista?" perguntei-lhe, com uma pontinha de pilhéria. "Sou sim, mas não profissional. Poderia até ser, se quisesse. » Então ela me explicou. « Sabe, Joyce, eu faço massagem desde os meus tempos de faculdade, sou muito boa nisso. Aprendi também a fazer do-in, acupressura, as pessoas gostam." Perguntei : "E elas se sentem aliviadas depois?" "Claro que sim. Se você quiser posso te fazer uma massagem que vai te deixar muito relaxada e essa dorzinha aí vai desaparecer na hora, pode ter certeza." Fiquei meio indecisa diante daquela situação meio inesperada, e minha resposta saiu um tanto evasiva. Vera deve ter percebido o meu pouco entusiasmo pela sua idéia, mas não disse nada e nós continuamos a bebericar e a mordiscar nossos salgadinhos. E que, por sinal, estavam divinos.
Se bem que ainda meio constrangida com aquela minha maneira desajeitada e insegura de dizer se aceitava ou não o que ela me propusera, porém não querendo deixar a minha amiga magoada, perguntei-lhe então o que eu deveria fazer. « Fazer o que , Joyce ? não entendi. Você quer ou não quer que eu te faça uma massagem ? »» perguntou, arregalando os grandes olhos verdes. A minha pergunta fora boba, realmente. A verdade é que eu jamais me vira em situação semelhante àquela pois, com exceção das poucas mulheres fisioterapeutas que conheci, eu jamais fora massageada por outra mulher. E menos ainda em um quarto de hotel. « Sim, quero. » respondi-lhe, timidamente. "Basta que você tire apenas a blusa e o sutiã, e depois se deite de bruços na cama, assim, de comprido." Tomei um um pouco mais de vinho e em seguida tirei a minha blusa. Demorei um pouco, comentei algo sem muita importância, depois dei uma longa inspiração e, sem saber para onde olhar, terminei tirando o meu sutiã. Deitei-me rapidamente na cama, de bruços. Vera pediu-me para relaxar o corpo, completamente. Depois foi até o abajur da cabeceira e o acendeu. Em seguida apagou os spots do teto, o que diminuiu a intensidade da luz no quarto. "Não morra de medo não, tá, é que a penumbra relaxa, numa boa..." disse-me, com um sorriso. Foi então até a bolsa dela, tirou um frasquinho escuro e me mostrou. « Joyce, você não é alérgica a óleos, é ? » « Não que eu saiba. » respondi. « Que óleo é esse? » « Oleo de amêndoas, conhece ? » « Claro que sim, conheço » Vera caminhou até a cama e parou. »É muito bom para a pele também, eu uso sempre para fazer massagem. » Falou-me também que sempre que vinha a São Paulo ela trazia um frasquinho de óleo de amêndoas na bolsa para evitar problemas de pele, principalmente no frio paulista. "Frio paulista, sei… se você conhecesse o frio europeu..." falei. Ela respondeu : "Acho que eu viraria picolé, com certeza ! » e deu uma risada, cristalina, que me lembrou a risada das adolescentes. "Sabe, Joyce, eu não conheço nadinha da Europa, mas adoraria ir lá, um dia." Dei um suspiro: "No momento, o que eu mais quero é justamente esquecer o frio da Europa. » e emendei : « Mas parece que ela tem uma filial meteorológica aqui em São Paulo. » Rimos como duas velhas amigas.
Vera sentou-se na cama de través, à altura da minha cintura, passou óleo nas mãos e friccionou-as durante um momento. Em seguida começou a espalhá-lo pelas minhas espáduas, suavemente. Ao sentir o toque de suas mãos em mim, foi como se o meu corpo tivesse captado algum sinal, algum recado oculto, codificado, misterioso. Um recado, porém, enviado em um nível muito sutil. Talvez até que eu tenha também emitido um discreto arrepio, sutil também. Impossível, talvez, de ter sido percebido por Vera, mas que pareceu se espalhar como uma carícia silenciosa, no mais íntimo de mim mesma. Relaxei completamente e entreguei-me àquelas mãos mornas que, em movimentos lentos mas firmes, começaram a me massagear. E com muita habilidade, por sinal.
© MarisaW 2003
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