VERA (Parte III)


G ozei intensamente com a boca de Vera em mim, sugando-me inteirinha, como se fosse uma ventosa. Sua língua entrava e saia da minha vagina com tanta energia, que era como se ela tivesse várias. Seus dedos continuaram, nervosos, a me acacriciar e a me apertar, enquanto ela continuava a lamber os lábios do meu sexo, cheia de volúpia. Mesmo depois que as convulsões do meu primeiro orgasmo se acalmaram, ela continuara a me lamber, a me sugar, a me cheirar, parecia totalmente faminta de mim. E continuou, continuou até que um outro orgasmo me tomou por inteira e eu comecei a tremer de intenso prazer. Mulher sexualmente muito ativa, Vera tinha um temperamento de dominadora. Ela impunha o ritmo dela naquele nosso delicioso jogo. Eu estava completamente remexida em meu interior, quase inerte. Alternava meus rápidos clarões de consciência com torpores quase orgásmicos, extasiada pelo intenso prazer que meu corpo recebia naquele instante. Profundamente excitada mas, ao mesmo tempo, perplexa com a insólita experiência que eu vivia, totalmente revolvida no meu lado feminino, em meus afetos, em minhas convicções, tudo parecia uma mistura de líquidos diferentes agitados dentro de uma imensa garrafa. Vera era senhora da situação e, embora muito excitada também, continuava a me seduzir com total consciência do que fazia. Como uma serpente prepara o seu bote, ela me fazia ter um orgasmo após outro, parecendo não se abalar muito com o que se passava dentro de mim. Docemente, puxei sua cabeça para perto da minha, querendo beijá-la. Foi um ato instintivo, como um reconhecimento pelo prazer intenso que ela estava a me proporcionar naquele momento. Vera não relutou e ofereceu-me os seus lábios, extasiada. Fechei os olhos e a beijei. Foi a primeira vez que eu beijara uma outra mulher na boca. A princípio eu o fiz com carinho, quase que com adoração, mas à medida que nossas línguas começaram a se lamber, a se roçar, a se embater, nervosas e despudoradas, uma sede de sexo foi tomando cada vez mais conta de mim e nossa bocas se colaram num demorado beijo, furioso, selvagem, um beijo quase animal. Nossas línguas dançaram e se atracaram, famintas como duas guerreiras apaixonadas.

Os cheiros dela me deixavam enlouquecida de tesão. O perfume que usava, misturado à sua saliva e aos cheiros de mulher que pareciam exsudar por todos os seus poros, criavam uma atmosfera sexual tão forte que me fez entrar em um cio até então desconhecido para mim. Sem parar de me beijar, Vera deitou-se sobre mim, esfregando o seu corpo no meu, fazendo os nossos seios se beijarem. Nossos mamilos, duros, começaram a se roçar uns nos outros com sofreguidão. Vera escorregou os lábios dela para os meus mamilos e começou a mamá-los, louca de volúpia. Rolava a língua de forma circular, sugava-os, lambuzava-os de saliva, mordiscava-os, mamava-os furiosamente, deixando-me em uma excitação alucinante. "Tá gostando, meu amor ?" me sussurrou de uma voz rouca. "Demais... demais…" sussurrei, "é muito novo para mim... estou meio perdida...." « Tua buceta cheira tão bom que eu não estou mais agüentando… » Eu tentei rir, meio sem graça. Ela então me disse que era natural falar palavrões, que eu deveria levar a coisa naturalmente, que não deveria me fazer muitas perguntas naquela hora, devia deixar fruir minhas sensações e vontades. E que se aquelas nossas vontades surgiram assim tão fortes, é porque elas já existiam dentro de nós. Já latejavam dentro de nós. Sendo assim, dar vazão a elas da maneira como estávamos dando era algo muito natural, sadio até. Concordei. Mas a verdade é que as coisas ainda estavam muito embaralhadas na minha cabeça para que eu fizesse uma noção clara daquilo tudo. Ela começou então a escorregar sua língua pelo meu ventre, rodopiou em torno do meu umbigo, depois desceu pela minha virilha, nos meus pelos, depois foi subindo de volta pelo meu corpo até que parou no meu queixo. Olhou-me bem nos olhos e, antes de pousar a cabeça no meu peito, perguntou baixinho : "Você se ofendeu com meus palavrões?" Eu demorei um pouco a responder. "De hábito, eu teria ficado ofendida sim... mas quando você falou, sei lá porque, não fiquei." Falamos então desses nossos tabus meio idiotas com certas palavras que nem sequer sabemos porque as temos. Mas que, estupidamente, continuamos a guardá-los. Ela me disse que certas palavras podem chocar certas pessoas mas não a outras. « Tudo é muito relativo. » Concordei. "Você só sente atração por mulheres?" perguntei. Vera suspirou. "Nem sempre. Depende muito da pessoa, da mulher." Deu um longo suspiro, levantou-se e foi buscar um cigarro. « Quer um também ? » perguntou estendendo-me um cigarro na ponta dos dedos. "Eu fumo só muito raramente, mas vou aceitar." Ela então acendeu um cigarro e me passou. Depois, acendeu um outro para ela e guardou o maço na bolsa vermelha. "Eu sou, digamos, meio casada, Joyce. Minha vida é um rolo só !" e pôs-se a rir.

"Como meio casada?" perguntei.

Ela me explicou que tinha marido e dois filhos, mas que o marido vivia a maior parte do ano fora. Ele trabalhava no ramo de exploração e perfuração de poços de petróleo e vivia viajando o tempo todo. Ficava meses fora de casa. "Profissões muito diferentes as de vocês..." comentei. "Demais, diferentes demais até! meu marido era engenheiro, tinha um escritório em Olinda, mas com a crise ele decidiu entrar na área de petróleo. Aí deixou a firma que ele tinha, a cidade onde morava e mesmo até o país. Tudo. Até a família !" disse, com ironia. Ficamos fumando por um momento, em silencio. Depois Vera aproximou-se de mim, sentou-se no tapete, ao lado da cama, e pousou um braço na minha coxa. "De vez em quando, eu tenho experiências com mulheres. Mas não entro de cabeça. Algumas delas viraram até minhas amigas. Outras não. E você, é a sua primeira?" Soprei a fumaça e lhe respondi, quase como se me desculpasse : "Sim..." depois perguntei : « Por que você nunca entra de cabeça, o que lhe impede ? » Vera olhou para o chão, sem responder. « Meus filhos e minha família. Eles jamais aceitariam. E no meu trabalho também. Sou muito conhecida na minha área e as coisas poderiam se complicar, entende ? » Claro que eu a entendia. « Mas você gosta mais de outras mulheres que do seu marido ? » perguntei, sem lá muito brilho. « Eu tive poucos namorados na minha adolescência, na verdade, eu preferia mais a companhia de outras garotas. Quando eu tinha 17 ou 18 anos, chegou mesmo a rolar uma ou duas transas com colegas de escola. Nada de ir muito longe, ficamos apenas naquelas pegadinhas, beijinhos, amassos. Foi quando eu fiquei com medo de ser rotulada de lésbica e me afastei delas. Foi uma época muito chata, eu fiquei muito fechada comigo mesma, com as pessoas. Achei até que era lésbica mas não sabia como assumir isso. Tentava esquecer tudo nos estudos, estudava como uma condenada. Foi quando saí da faculdade e conheci Homero. Em pouco tempo nos casamos e até hoje eu não sei porque tudo foi tão rápido assim, você acredita ? três meses e meio apenas. Os filhos vieram logo também." Deu uma baforada e passou a me olhar, enquanto falava. Eu só ouvia. « Mas eu nunca deixei de notar um certo tipo de mulher, entende ? não podia evitar, sempre foi algo mais forte do que eu. Mas ficava só nisso, nos olhares. Quando Homero deixou o escritório e passou a trabalhar no ramo de petróleo e a se ausentar por vários meses, aí eu comecei a me inquietar, realmente. Eu não sabia mais como controlar a minha sexualidade. » Eu a interrompi, gentilmente. « Mas…você não teve vontade de sair com um outro homem, por exemplo ? » Vera me olhou com os seus grandes olhos verdes, esboçou um sorriso e respondeu. «  Não, e é aí que está a chave do problema, Joyce. Você acredita que em momento algum eu pensei em sair com um outro homem ? pelo contrário, inexplicavelmente, só fez aumentar o meu desejo de sair com outra mulher. Eu sempre me senti atráida por mulheres bonitas, femininas. Cheguei mesmo a me masturbar pensando em alguma atriz, ou em uma mulher que eu vi na rua, que conheci no trabalho. Vivia muito excitada, só pensava em fazer sexo com outra mulher, só não sabia por quem começar, entende ? «  Rimos juntas.

«  E você, como se sente agora?" Fechei os olhos por um instante. "Boa pergunta!" e comecei a rir, embaraçada. Vera riu também. Depois voltei a ficar séria e falei: "No momento, não sei, Vera, é tudo muito novo para mim. Tudo isso que estou vivendo agora é muito diferente....mas, não me sinto mal. » Ela continuava me ouvindo, sem nada dizer. Continuei. « Sabe, Vera, também não me sinto com a sensação de estar fazendo algo errado. Não tenho a sensação de me sentir culpada de nada, você me entende ?" Ela me respondeu: "Entendo sim, comigo se passou a mesma coisa. Acho que tudo é uma questão de se aceitar como se é. Eu sou assim, me sinto atraída tanto por homens como por mulheres. Resolvi a coisa em minha cabeça. Mas também não vivo paquerando mulher o dia inteiro não. Só que, quando calha…" e me olhou com seus grandes olhos cheios de segundas intenções. Foi a deixa para eu olhá-la também nos olhos, cheia de carinho. A minha pergunta saiu espontâneamente: "E comigo… calhou?" Ela abraçou minhas pernas, e me olhou meio sorrateiramente: "O que você acha ? » Eu disse : « Responder uma pergunta com outra não é justo. » Ela esticou os lábios. «  Sabe, eu sempre tive muita atração física por mulheres como você. Sei lá porque, aquelas que fazem mais tipo de estrangeira, entende ? como já lhe disse, eu cheguei mesmo a me masturbar me imaginando com certas atrizes de cinema. Se quer saber, prá ser sincera, eu não pensei no entanto que ia rolar isso entre nós não. Pelo menos no início...." Então lhe perguntei :" E se arrepende?" A sua expressão ficou séria de repente: "Jamais, Joyce, jamais. Dificilmente eu me arrependo de ter feito algo que veio do mais fundo de mim mesmo, que nasceu das minhas entranhas. Eu te achei uma mulher muito atraente, desde que a vi. Te achei muito bonita, um tipo… como dizer…de classe, refinada. Foi aí que alguma coisa se deu com os meus hormônios. Pensei até que você fosse gringa… » Comecei a rir. « Não ria não, é sério mesmo, te juro ! você sabe que você não tem muito tipo de brasileira não. Eu te curti desde o primeiro dia, sempre achei que, no fundo dessa couraça de mulher ativa, de diretora de multinacional, pós-graduada, emancipada e tal, lá no fundo, bem lá no fundinho mesmo havia uma mulher muito carente. Errei ? » Mordi meus lábios e respondi : « Não, não errou. » Ela continuou : « Foi só quando comecei a te massagear que eu fui ficando cheia de tesão...depois que vi teus seios, a minha libido ficou a mil. Aí eu fui perdendo um pouquinho a cabeça." E me olhou de uma forma que fez voltar em mim aquela sensação de momentos atrás.

Uma onda de calor começou a se propagar em meu baixo-ventre e veio se espalhando pelo meu corpo, como uma gota de tinta concentrada vai colorindo pouco a pouco uma folha de papel úmida. Entreabri um pouco mais as minhas coxas e me ofereci a ela.



© MarisaW  2003

 

 

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