VERA (Epílogo)


A lgum tempo depois, Vera levantou-se, cuidadosamente, e foi buscar um cigarro. « Quer um ? » disse, mostrando-me um cigarro na ponta dos dedos. « Não, obrigada. » respondi abanando a cabeça e virei-me bruscamente de lado, na cama. Foi então que, repentinamente, entrei numa crise de choro convulsivo, muito forte. Vera deixou o cigarro e acorreu, tomou-me nos seus braços e me cerrou com força. Falou-me coisas carinhosas, acariciou meus cabelos, beijou meu rosto, afagou-me, enfim, deu o colo que eu precisava naquele instante. Mas eu continuei a chorar. Precisava. A carga de emoções e de sensações pegara-me de surpresa e tinha sido muito, muito violenta. Precisava me lavar de tudo o que eu vinha sentindo durante meses e meses a fio, sem descanso, lavar-me das minhas tensões, das minhas frustrações existenciais, das minhas maiores carências, as mais profundas. Fazia-me bem chorar naquele momento e Vera percebeu isso. Mulher bem mais experimentada do que eu, ela tratou-me com carinho e com muito afeto, foi como uma amiga, uma velha e querida amiga.

« Eu perdi a cabeça quando comecei a lhe massagear, foi mais forte do que eu. » ela disse, enquanto soprava a fumaça do cigarro para o teto. « Mas eu me sinto bem, me sinto muito bem em ter lhe dado esse meu afeto, esse meu carinho… essa minha tesão. » Com uma mão continuara acariciando os meus cabelos. « A minha primeira vez foi muito parecida com a sua, eu fiquei sem saber como me olhar no espelho durante dias. Depois cheguei à conclusão que foi algo que aconteceu porque tinha que acontecer, ninguém me forçou a fazer nada. Eu reagi ao que a outra pessoa me fazia e até tive muito prazer depois. Então, qual é o problema ? » Eu a ouvia calada, sem tirar nenhuma conclusão do que ela ia me dizendo. «  Eu não sou totalmente lésbica, Joyce. Isto é, pelo menos nunca senti necessidade de me assumir como tal. Eu tenho tesão em certas mulheres. Talvez até mais do que com um homem. Mas eu também não me sinto mal quando sou amada por um homem. Depende do meu envolvimento emocional com ele. Mas não sei se sentiria a mesma coisa, em termos de afetividade, com uma outra mulher. Não sei, eu me ligo em sexo, apenas, não sei te explicar porque sou assim.» Pensei em perguntar-lhe se ela tinha uma amante mas, com medo de constrangê-la, me calei. Vera continuou. » Hoje, com você, eu fiz e disse coisas que nunca disse antes com nenhuma outra mulher. Acho que você mexeu com coisas do meu sub-consciente que estavam proibidas de sair, de se manifestar. Você mexeu com palavras-tabu que vivem dentro de mim, no mais fundo de mim mesma. Enfim, a tesão que pintou por você fez jorrar tudo isso e eu extravasei, sem pensar. » Vera deu um grande suspiro e depois ficou em silêncio. « E como você se sente agora ? » perguntei, tentando recobrar meu espírito. « Me sinto ótima, muito bem comigo mesma. Estou muito feliz, Joyce, feliz mesmo. E você ? » Demorei um pouco para responder. « No momento sim, eu me sinto bem. Meu corpo está…até dolorido de tanto prazer. Acho que só poucas vezes em minha vida eu gozei tanto assim. Foi algo meio violento, ainda estou meio fora de mim. » Vera levantou-se e foi buscar o cinzeiro na mesinha. Depois voltou e sentou-se na cama, ao meu lado. « Acho que você deve encarar o que se passou entre nós como uma reação normal de duas pessoas humanas e adultas, independentemente do sexo delas. Sem pecisar explicar muita coisa. A gente se sentiu atraída sexualmente uma pela outra, a coisa pintou, foi mais forte que nós, a gente transou, se deu prazer numa boa, foi super-gostoso e pronto. Aliás, acho que, no fundo, a gente tenta sempre racionalizar tudo o que nos acontece, principalmente o que é ligado a sexo, já percebeu? e é nessa que a gente deixa de entender muita coisa, porque nem sempre as coisas que a gente sente são compreendidas de forma racional. Você me entende, Joyce? » Fiz um gesto que sim, com a cabeça. Vera continuou ainda falar e a dizer que não seria lá muito sensato de tentar nos apaixonarmos uma pela outra, que não sera bom misturarmos tesão e paixão, e outras coisas mais, porém eu parecia ouvi-la por uma orelha apenas. Na minha cabeça, eu ainda tentava (em vão) estabelecer o que ela me dissera, o que eu sentia naquele momento, e criar relações claras entre todos esses parâmetros. Percebi também que, sutilmente, Vera dava a entender que as coisas continuavam as mesmas de antes para ela, e que deveriam continuar da mesma maneira para mim, também. Não me falou em paixão, não me beijou na boca, não começou a me acariciar e nem tentou criar clima passional entre nós. Foi graças a esse comportamento dela que eu pude recobrar as noções de mim mesma e do que se passava comigo naquele momento. Passei a ver Vera como uma amiga em potencial Uma amiga diferente das outras. Gostaria de poder falar-lhe do que eu estava sentindo naquele momento. Mas eu não tinha condições de formular minhas idéias de maneira bem clara, e sabendo que não faria que repetir e perguntar-lhe coisas banais, preferi então me calar.

Fui até a sala de banho e depois voltei ao quarto dentro de um roupão branco. "Ainda com frio, Joyce? não acredito!" perguntou com uma certa ironia indisfarçável. "Frio ? depois disso tudo...o que você acha?" Ela avançou para mim, ainda nua., e me deu um grande abraço. Ficamos as duas assim, por um momento, em silêncio. "Não quer tomar banho aqui antes de subir?" perguntei, quebrando o silêncio. Ela me olhou com aqueles olhos verdes que pareciam sorrir. "Não, querida, até que gostaria, mas realmente tenho que subir." Foi até a sua bolsa, pegou um frasco de loção e começou a se perfumar. « Bom esse perfume. Como se chama? » perguntei. « Acqua Fresca. Boticário, não conhece ? » Aproximei-me para ver o frasco de mais perto. « A marca eu conheço, mas desse perfume não lembro não. » Em seguida pus um pouco da loção nem um dedo e levei-o ao nariz. « Hummm, é gostoso sim. » Vera fechou o frasco e o pôs de volta na bolsa. « É, sim, eu adoro. » Depois começou a se vestir, em silencio. Abotoou a blusa de seda bege com motivos japoneses, depois vestiu a saia escura e foi até a janela, sempre em silêncio. Eu me levantei, fui até banheiro e peguei a escova de cabelos. Quando retornei ao quarto, Vera me esperava diante da cama. Achegou-se mais e, com aquele seu jeito de felina, olhando-me bem nos olhos, me abraçou. Foi um abraço demorado, um afetuoso abraço. Beijou-me no rosto, na testa, nos cabelos, envolveu-me de Acqua Fresca. Deixei-me levar, sem pensar, e fechei os olhos. Não sei se instintivamente, ou se meu coração já começara a me dar estranhas ordens, por um átimo apenas, os meus lábios procuraram os seus. O rosto de Vera, porém, colou-se ao meu, lado a lado, evitou que nossos lábios se encontrassem. Em seguida, beijou-me ainda duas vezes, no rosto apenas. Beijo de amiga – de velha amiga. Sussurrou-me na orelha : « Essa nossa tarde ficará apenas em nossas lembranças. Em nós, somente. Para sempre." Beijou-me de novo e eu a abracei com força, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, totalmente confusa em meus sentimentos, totalmente perdida em minhas carências irresolvidas e, ainda por cima, presa das intensas emoções e sensações que acabara de viver. Senti que Vera também chorava. Ficamos por um momento assim, abraçadas as duas, em silêncio. Depois, quase que imperceptivelmente, ela afastou-se para ir pegar a bolsa e as sacolas de compras que estavam numa cadeira. "Amanhã é o último dia. Você viaja no domingo mesmo ?» Respirei fundo e respondi : « Não, na segunda à tarde. E você ?» Vera passou uma mão pelos cabelos e respondeu. « Vou no domingo, tipo meio-dia ». « Você tem que subir mesmo? » tornei a perguntar. « Tenho sim, querida, preciso dar um telefonema para minha casa e nem sei que horas já são. »

Acompanhei Vera até a porta, procurando o meu relógio de pulso com o olhar. A porta entreaberta, deu-me ainda um beijo no rosto e me disse: « Durma bem, tá querida, a gente se vê amanhã. Se precisar de qualquer coisa, você sabe o número do meu quarto. É só chamar, tá ? » Gracejou ainda com as sacolas dela e depois desapareceu no corredor. Fechei a porta e fiquei parada na entrada do quarto, sentindo o perfume de Vera que ainda estava no ar. Despi o roupão e vesti rapidamente uma blusa e uma calça jeans. Depois me abaixei para apanhar o meu relógio que estava no tapete, ao lado da cama. Já passava da meia noite. Olhei a janela e vi que continuava a chover. Estava morta de fome, mas sem nenhuma vontade de descer até o restaurante do hotel. Chamei a portaria e pedi que me trouxessem algo para comer e beber. Comecei a passar a escova nos cabelos, dando voltas pelo quarto. Meus pensamentos faziam zigzag pelos quatros cantos do Universo, como se fossem as imagens de um caleidoscópio que girasse sem parar. Nisso, pisei em algo duro e soltei um gritinho. Abaixei para ver e vi que era um pequeno brinco, dourado, com uma pérolazinha pendurada nele. « Deve ser da Vera.», pensei. Caíra no tapete e ela não dera pela falta. Então, fui até a janela e fiquei, por um momento, olhando a chuva cair, através da vidraça, retornando o brinquinho nos meus dedos. Eu estava plena de pensamentos e emoções mas, ao mesmo tempo, me sentia totalmente vazia por dentro. No entanto, uma crescente certeza me dizia que, dali em diante, eu jamais seria a mesma.



© MarisaW  2003

 

 

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