Virada de Ano

– É a última vez, ela murmurou. A voz saíra hesitante, rouca, no meio da obscuridade sufocante que fazia naquela tarde de fim de dezembro.

Acenei a cabeça concordando, mesmo sabendo que ela não podia me ver. Ela, porém, sentiu o movimento da minha cabeça contra o seu ombro e pousou uma mão na minha coxa. Eu já pressentira, desde o momento em que a fui buscar na faculdade, que aquela seria a última das últimas. E ela o sabia também. Mas nada foi dito, comentado. A coisa ficara no ar, entre nós, como um segredo de Polichinelo. Um segredo que ariscava, no entanto, de se transformar em farsa grotesca e de fazer em pedaços as nossas melhores lembranças. Era risco e nós o sabíamos. Um risco que assumíamos de forma tácita, pontuando nossos diálogos, aqui e lá, com frases curtas, olhares indiretos, evitando palavras e gestos, enfim, tecendo entre nós uma estranha cumplicidade, lacônica, tensa, falsa e omissa. A cumplicidade dos suicidas.

Nas duas semanas que precederam aquele encontro, eu tentara me compreender melhor e achar a solução menos dolorosa para um problema que, na realidade, jamais existira. Dar um tempo teria sido a opção menos original, sem dúvida. Mas talvez a que tivesse se revelado mais eficaz. Uma pequena viagem estratégica nos dias que precederam aquele nosso encontro, poderia ter arranjado bem as coisas. Em todo o caso, qualquer maneira suave, diplomática, discreta e civilizada, teria sido também a mais covarde. É que a carência, além de muito míope, é uma grande imbecil. Minha atenção voltara a se concentrar em um de seus mamilos. Na imaginação, apenas, recomecei a sugá-lo, lentamente, a impregnar-me do cheiro e sabor sutís que ele tinha. Senti o bico endurecer-se ao contato da minha língua, e apertei então os meus lábios em torno daquela aréola que se contraía, abocanhando-a, como se a minha boca fosse uma ventosa esfaimada. Exercício que fazia minhas fantasias dançarem em espiral, como folhas em um vendaval, e depois se perderem nos delírios que elas mesmas provocavam. Outras vezes, minha atenção se condensava em um seio apenas, demorando-se na linha dele, observando a forma do mamilo, as diferenças de textura e de pigmentação, analisando-o como se ele fosse uma mandala, plena de simetrias e assimetrias, recheada de códigos e mistérios, como se quisesse tatuá-lo definitivamente em minha memória. Aguardava, então, que ela se agitasse e, de forma implícita, que exigisse de mim ainda mais, para que eu lhe dissesse : – Devagar, devagar, deixa eu guardar bem essa lembrança dentro de mim…

Aí me vinha aquela irresistível vontade de explorar a orelha dela com a ponta da minha língua, de me dar o prazer de visitar cada curva e cavidade, cada dobra e, quem sabe, lograsse compreender essa infinita felicidade que pode surgir de uma simples carícia em uma orelha. Talvez que isto me tivesse ocupado a tal ponto que a faria revolver-se mais, ainda mais, cada vez mais, com impaciência, e começasse a apertar suas coxas contra as minhas, e esfregasse o seu sexo úmido, pulsante, e se deliciasse em bordar minha pele de nomes lascivos, pornográficos, com o hirsuto pincel de pêlos de que se orgulhava. Eu teria, no entanto, continuado a torturar sua orelha, mesmo sabendo que ela tiraria partido dessa minha manobra desleal, e a teria deixado gozar à vontade, na certeza que, se o quisesse, poderia levá-la a prazeres mais esquisitos ainda.

Não teria lhe sugerido que fizéssemos um sessenta e nove. Não. Pelo menos não naquela tarde. Eu queria me consagrar inteiramente a ela, não queria jamais esquecê-la. Mesmo que aumentasse a vontade de sentir sua língua em mim, de forma doce e intensa, para me aguçar o prazer e ir, aos poucos, me saturando de volúpia, mesmo que me desvairasse aquele desejo de lambê-la com febrilidade, vigorosamente, eu teria, porém, o cuidado de observar suas reações. Espiaria, atentivamente, a maneira com que ela respirasse, de como se contrairia a cada toque meu, espreitaria o momento exato em que o seu clitóris, já inchado de sangue, implorasse a graça de um aperto prolongado dos meus lábios.

Sinceramente, eu jamais poderia ter-me esquecido de fazê-lo. Não, claro que não. Eu teria deslizado minhas mãos, meus lábios e meus dentes, ao longo das dobras do seu sulco, e me apossado de cada uma delas, de cada póro delas, para jamais me esquecer da menor forma, nem do menor cheiro e nem do menor sabor que ali habitasse. Nem teria tampouco me deixado distrair pelas suas súplicas, por seus “enfie a língua no fundo, bem fundo” ou então seus “me faça gozar gostoso”. Teria, sim, explorado metodicamente o seu sexo, moído-lhe a paciência com a ponta da minha língua para, em seguida, penetrar-lhe um, dois, ou mesmo três dedos meus por entre as rugas úmidas da sua vagina ensopada, torturando-a, até levá-la às vascas do prazer. Para que ela ficasse prisioneira deste obscuro prazer, dessas minhas carícias mais íntimas, as mais secretas. E para que ela não aceitasse nenhuma outra mais, a não ser aquelas que viessem de mim.

Eu teria feito tudo para esticar indefinidamente esse momento. Teria querido tanto que, em nosso abraço, nos tivéssemos esquecido dos minutos, das horas e dos dias… e dos anos. Mas juro, por todos os cães do Inferno, eu não a teria jamais impedido de gozar tão rápido nem tão violentamente como ela o fez. E nem tão cedo, como o foi. Não teria tido outra escolha que a de me esfregar, alucinadamente, contra ela, de possuí-la mais uma vez e beijá-la, beijá-la, e beijá-la, a ponto de gozar junto com ela, profusamente, sem dar-me mesmo conta que eu gozava também, tanto que a minha atenção havia penetrado nela, feito um parafuso obssessional. Um parafuso cego, surdo, mudo, faminto e obssessional. Naturalmente que eu acabaria mesmo por mergulhar nas profundezas mais abissais do nosso orgasmo; e teria me desvanecido sobre o seu corpo, ainda trêmulo dos espasmos, e que teria querido lambê-lo mais uma vez, inteirinho, até que a minha boca se tornasse seca, crispada e insensível, como a metade da minha alma, naquela hora. Tê-la-ia tomado em meus braços e chorado um oceano com ela. Pouco importaria se eu saberia ou não distinguir, ou mesmo se quereria saber ou não distinguir das nossas lágrimas, o suor salgado e copioso que brotara do nosso sexo alucinado naquele sufocante calor de fim de tarde. Eu não as teria trocado por todo o ouro deste mundo.

Uma vez mais, na penumbra, eu a abracei com força e beijei sua testa, seu rosto, o pescoço, sua nuca. Beijos leves, quase imperceptíveis. Ela deu um dilatado suspiro. Depois, tomou a minha mão e a levou até os seus lábios. Meu olhar, involuntariamente, pousara no pequeno relógio, na cabeceira da cama.

– Você tem que ir, sussurei, o táxi… pode chegar a qualquer momento.

– Não, me respondeu, mais uma apenas, uma última ainda…

E colou os seus lábios nos meus, abafando qualquer veleidade de recusa de minha parte. O que poderia eu ter feito para que essa nova e última vez fosse ainda mais inesquecível que as precedentes últimas vezes? ter-lhe dado ainda mais de dedos? de lábios? ainda mais de língua? ter sorvido o seu mel, farto e recendente, como a derradeira tragada do condenado diante das balas letais? eu teria mesmo recoberto todo o seu corpo de carícias desesperadas, até que ela, finalmente, adormecesse. E velado seu sono, ouvindo apenas sua respiração, enquanto acariciar-lhe-ia os cabelos, e assim ficado até o fim dos meus dias, entranhando-me cada vez mais daquela inefável atmosfera que se exalava dos nossos corpos, até que os primeiros clarões da aurora do fim dos tempos riscassem diagonais de luz na parede do quarto, e viessem tingir de ouro os nossos corpos, nus, entre os lençóis.

– Você acha melhor eu por a blusa branca ou essa amarela ? me perguntou.

– Tanto faz, respondi, com qualquer uma das duas você continuará sempre linda…

Dentro de mim, crescera uma vontade súbita de me esbofetear por ter feito um comentário tão ridicularmente apaixonado. Ela sorriu apenas e fez uma carícia rápida em meu rosto. Em seguida, correu até a janela do quarto, afastando a cortina.

– Acho que o táxi acabou de chegar. Vou ter que ir. Enfiou-se na calcinha e parou diante de mim, me olhando de cima a baixo. – Você também, nesse seu belo roupão aí, tá um charme…

Mentia. Deslavadamente. Aquele meu roupão – que fôra herdado – era imenso, deselegante, fora de moda. E, além do mais, tinha uma combinação de cores odiosamente extravagante. Ela sabia que mentia. No entanto, essa mentira não a impediu de contemplar, de forma demorada, o meu decote e, sem sutileza alguma, de deslizar os dedos por entre os meus seios. Só após um átimo de contida indecisão é que apertei-lhe o punho.

– Você não vai tomar uma ducha… pelo menos? perguntei, de voz uma trêmula, quase sumida.

Sua resposta foi curta, seca, quase ríspida. – Não. Não desta vez. Meteu as fraldas da camisa por dentro da calça e puxou o zíper. Depois, passou uma escova rápida nos cabelos e foi apanhar a valise e a mochila que estavam na sala. Meu coração parecia uma válvula fora de controle.

– Me ajuda a enfiar a mochila? perguntou.

Passei-lhe as alças pelos braços e pousei o saco de lona em suas costas, sem dizer nada. Em seguida, ajeitei-lhe os cabelos, serrando mais o elástico que os mantinha em rabo-de-cavalo.

– Tem certeza que é realmente o que você quer ? perguntei-lhe. Os nossos olhares se cruzaram no espelho da porta de entrada e ficaram, como que imantados, um no outro.

Hesitou um segundo. Acho até mesmo que vi um fugitivo sorriso esticar-se em seus lábios.

– Sim, respondeu, finalmente. Eu o amo e ele me ama também.

Minha mão apertou o seu braço. Ela não reagiu.

– Tenho que ir agora, o táxi…

– E você… vai contar para ele ? ousei perguntar-lhe.

No espelho, o seu rosto se transformara em máscara kabuki com adornos barrocos de máscara veneziana. Desviou o olhar, pegou a valise e olhou em torno para verificar se não estava esquecendo de nada. Em seguida, sem alterar a expressão, pôs uma mão no meu ombro e o afagou. Afago duro. Mecânico.

– Mas lhe contar o que?

Acariciou o meu rosto, docemente, sem pressa, como se o torturasse.

– Contar o que? repetiu, naquela voz grave e meio rouca que eu tanto me habituara ouvir, entre os lençóis das nossas camas, enquanto varávamos as nossas mil e uma noites imortais. – Afinal, foi mesmo a última vez, sentenciou.

O telefone do meu apartamento tocou. – Deus do Céu, é o motorista do táxi, com certeza, agora eu tenho mesmo que ir! Então, de forma brusca, largou a valise no chão, me tomou nos braços com força e me beijou na boca. Mas o fez de forma tão apressada que, naquele instante, eu desejei que ela já estivesse no trem. Ou no ônibus. Ou em um avião, pouco importa, contanto que já se encontrasse a milhares de quilômetros daquele apartamento, daquela porta, e de mim. No inesperado embaraço que me tomou, eu ainda a segui pelo corredor do edifício, até as escadas. Desceu correndo, ainda dizendo-me coisas que, na minha estupefação, pouco ou nada entendi. Voltei rápido para o apartamento e precipitei-me à janela do quarto. O tempo de vê-la acenar-me um derradeiro adeus, de pé, ao lado do táxi. Depois, entrou, o carro partiu e desapareceu rapidamente no meio do tráfego.

A noite ficara mais fresca e eu saí para fumar um pouco de tabaco. Em torno do meu edifício, o movimento de pessoas e automóveis se intensificara bastante. Caminhei até um semáforo, atravessei a rua e fui andar um pouco na calçada, olhando o mar. Pouco depois, diante de um quiosque de praia, descobri uma balaustrada, sem ninguém por perto, e decidi ficar ali um momento. A incessante construção e desconstrução de rostos, vozes, luzes e cheiros de toda aquela movimentação na rua, me parecia as imagens girando dentro de um caleidoscópio. Continuei a varrer a paisagem com o olhar, sem me deter, porém, em coisa alguma. Sentia somente a fumaça do cigarro vazar dos meus lábios e ía me deixando, cada vez mais, absorver pela crescente sensação de vácuo que se abria dentro de mim. Foi quando um terrível clarão, seguido de um violento estampido, me fez estremecer. E logo outro. E mais outro, e outros mais. Ergui os olhos para o céu, sem nada entender. Eram os fogos da virada de ano, o espetáculo pirotécnico que já se iniciava, em meio às buzinas e aos gritos da multidão, que agora acorria, cantando, em direção à praia.

«O ano acabou» disse, entre os dentes, retomando a respiração. Olhei para os rostos das pessoas que passavam, os o brilho dos fogos no céu, as luzes dos carros, das casas e me dei conta que, apesar dos pesares, a vida continuava a existir, ali em volta de mim.

© by MarisaW

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